quinta-feira, 15 de março de 2007

LEMBRAR CAMILO PESSANHA (1867 - 1926)



ESTÁTUA
Cansei-me de tentar o teu segredo
No teu olhar sem cor, - frio escalpelo, -
O meu olhar quebrei, a debatê-lo,
Como a onda na crista dum rochedo
Segredo dessa alma e meu degredo
e minha obsessão! Para bebê-lo,
Fui teu lábio oscular, num pesadelo,
Por noites de pavor, cheio de medo.
E o meu ósculo ardente, alucinado
Esfriou sobre o mármore correcto
Desse entreaberto lábio gelado...
Desse lábio de mármore, discreto,
Severo como um túmulo fechado,
Sereno como um pélago quieto.
Camilo Pessanha in "Clepsidra" (1920)

FILO-CAFÉ "OS MEUS POEMAS PREFERIDOS"





Qual o poema ou o poeta que mais o marcou? Haverá memória de algum momento que não merecesse um poema? Será o tempo uma memória esquecida onde o tempo fará a curva ou será a memória um verso esquecido de um poeta que chora por um grito no canto de uma página? Reflexões, discussões, vozes por soltar, poemas e poetas estarão à solta no mês da poesia em S. JOÃO DA MADEIRA.


SÁBADO, 17 DE MARÇO, 21H30


FILO-CAFÉ "OS MEUS POEMAS PREFERIDOS"

LIVRARIA ENTRELINHAS
(R. João de Deus, 167. Ao lado do Tribunal de S. João da Madeira, entre as filiais dos Bancos Santander e Millenium BCP)

(Entrada Livre…Tal como o pensamento)

Participantes:

Tiago Moita (S. João da Madeira, Poesia); Luís de Aguiar (Pinheiro da Bemposta, Poesia); Marco Santos (S. João da Madeira, Poesia e expressão plástica); Juliana Pinho (Carregosa, Poesia)

quarta-feira, 14 de março de 2007

SARA COSTA LANÇA "UMA DEVASTAÇÃO INTELIGENTE" EM S. JOÃO DA MADEIRA




22 De Março às 21h30 na Biblioteca Municipal

"Sara F. Costa nasceu em 1987, é natural da Vila de Cucujães e efectuou todo o seu percurso escolar em S. João da Madeira, tendo frequentado o secundário na área de Artes na escola Serafim Leite. O seu fascínio pelo outro lado do mundo leva-a a estudar algo tão excêntrico como Chinês e Japonês na Universidade do Minho na Licenciatura em Estudos Orientais que actualmente frequenta. Paralelamente, a arte da escrita é-lhe necessária e inerente. Algumas pessoas diriam apenas que se veste de forma um bocado estranha, ouve música barulhenta e passa a vida a ver macacada japonesa. “Uma Devastação Inteligente” é agora o trabalho destacado com o Prémio Literário João da Silva Correia. "


PASSOS DE ZINCO ATRAVESSAM-SE NAS ESTRADAS

Passos de zinco atravessam-se nas estradas


Dizes trazer o terror preso na garganta


E o amor de lado,


De um qualquer lado.


Densas insónias circulam nos músculos das imagens,


Colam-se às feições pouco nítidas dos meus reflexos.


E a solidão incinerada nas beiras dos passeios emana um odor turvo.


Tu prossegues por dentro dos versos poluídos.


O silêncio surge-te a vermelho enquanto o mundo vira a sua carne raspada para os holofotes.




Sara F. Costa in "UMA DEVASTAÇÃO INTELIGENTE"

O GRUPO "TARDE E A MÁS HORAS"



















Fundado a 31 de Agosto de 2006, por Luís de Aguiar, Sara Costa, Tiago Moita, Marco Santos e Juliana Leite, a convite de Ricardo Silva, dono da Livraria Entrelinhas, fundada a 8 de Setembro de 2006, o grupo “TARDE E A MÁS HORAS” surgiu no Âmbito de colmatar uma lacuna cultural muito grande na região: a falta de eventos culturais semanais que pudessem trazer a cultura de uma forma universal e gratuita às pessoas e dinamizasse ainda mais a actividade cultural em S. João da Madeira, extremamente dependente até á data dos eventos culturais promovidos pela Câmara Municipal de S. João da Madeira ou por pequenos grupos culturais que efectuavam pequenos eventos para um número muito restrito de pessoas momentaneamente.


ESPECTÁCULO “SETEMBRO (IN)VERSO”- O BAPTISMO DE FOGO (23/09/2006)

Foi num ambiente de grande expectativa e curiosidade q.b. que no dia 23 de Setembro, teve início o primeiro espectáculo do grupo cultural não-conceitual e pós (do pós) contemporâneo "TARDE E A MÁS HORAS", na Livraria Entrelinhas, em S. João da Madeira: Um espectáculo denominado "SETEMBRO (IN) VERSO" em homenagem a poetas portugueses que nasceram ou morreram no mês de Setembro. Nesse espectáculo os poetas homenageados foram Camilo Pessanha, Afonso Lopes Vieira, Antero de Quental, José Luís Peixoto e Natália Correia.
Sob a influência do ambiente acolhedor da livraria, que só pelo aspecto e traço arquitectónico é um convite por excelência, da música dos SIGUR RÓS que tornou tanto a atmosfera do espectáculo ainda mais envolvente e do clima de expectativa e de curiosidade estampado nos olhos dos espectadores que tiveram a felicidade de assistir aquele espectáculo único, desenrolou-se num espaço de poucas horas um verdadeiro concerto de emoções e de desejos pautado pela música, pela magia da declamação que cada um dos membros do grupo efectuou a cada um dos poetas que escolheu para declamar e pela moderação do nosso ilustre poeta e membro do grupo, Luís de Aguiar.

A primeira Declamação foi efectuada pela escritora e poeta, autora do livro "A MELANCOLIA DAS MÃOS E OUTROS RASGOS" (Pé de Página, 2004), estudante também de Estudos Orientais na Universidade do Minho, Sara Costa. Sara escolheu declamar alguns versos de Camilo Pessanha – o célebre poeta, autor da célebre obra "CLEPSIDRA": Uma escolha conveniente devido à ligação que o falecido poeta teve com Oriente (Mais propriamente com Macau) envolta com a magia e a sensualidade com que Sara Costa consegue imprimir nas suas declamações poéticas.

A segunda Declamação foi efectuada por Marco Santos, elemento do grupo e ex-membro do grupo N.A.T (Núcleo Amador de Teatro), de S. João da Madeira. Fez nesse espectáculo a declamação de um poema escrito em Setembro pelo poeta Afonso Pais Vieira: Um declamação extremamente teatral e cheia de sentimento, relatando o fado (ou destino, para alguns) do nosso país, à beira mar plantado.

A terceira declamação foi levada a cabo pelo Autor do blog, Tiago Moita, escritor e poeta, autor do primeiro Livro – Enigma do Mundo, "ECOS MUDOS" (Papiro Editora, 2006), e teve como poeta escolhido, José Luís Peixoto: Uma declamação que teve como pano de fundo três poemas do livro "A CRIANÇA EM RUÍNAS" e um poema escritor pelo autor deste blog, que resume o percurso pessoal e literário do poeta alentejano:
JOSÉ LUÍS PEIXOTO

Quando nasceu, já era a escuridão
A escuridão em si, quando nasceu
Nasceu na terra das searas de trigo
E dos cantares ao desafio
Celeiro do país aonde inventaram a arrogância
Lançado para o seio da terra como um pião na mão de uma criança
Pele de uma sombra navegando ao sabor da corrente de um rio

Alguém que é eu sem o saber
Miserável, forma de homem, pessoa
Invisível numa seara, a agitar tempestades
Dentro das sombras, como um mistério
Alguém que é que não deveria ser
E ri, perante a natureza que reflecte no espelho de si próprio

Da sua caligrafia, construiu as escadas do seu destino
Quando partiu para Lisboa, filha do Tejo
Capital do país donde nasceu a palavra saudade
Como um viajante com um destino traçado
Que construiu textos de ouro, sangue e cinzas
Com os seus dedos de fumo, para rios de tinta e de papel
E apanhou o seu primeiro sol com os dois silêncios
Que minguam dentro das paredes de fumo
À custa de nenhum olhar

À custa de nenhum olhar
Começou a dar palavras aos falcões de barro
Que teimavam não escutar os seus gritos
Já antes teriam lhe dito: “Morreste-me!”
Mas tudo não passou de um eco perdido
A vaguear pelos cantos de uma casa na escuridão
Como um fio de veneno ferido pelo gume do seu antídoto

Hoje, és mais que a criança em ruínas
Que corria num pomar para abraçar o seu pai
Que podia dormir até tarde nas férias do verão, quando o sol entrava pela janela
Quando não conhecia a letra p, quando não conhecia a palavra “poema”
E comia torradas feitas ao lume da cozinha do seu quintal
És o homem que se vê através dos seus olhos

O homem vivo que sente em cada pedra
O silêncio que caminha pelo seu corpo como uma aragem
O homem vivo que sente em cada montanha
A vida e o sol a iluminarem o seu rosto
O homem vivo que sente a sua própria pureza e alegria
Em cada grão de areia que apanha desordenadamente
Na praia aonde os seus dedos largam cinzas
Nas primeiras exigências da primavera

O olhar que desenha fumo na luz
E escreve no seu peito: mãe
Ser que dormes e me fizeste nascer de ti
Para ser as palavras que não se escrevem

Agora que despi o teu corpo de sangue e de sal
Nesta existência de papel
Para os olhos deste pedaço de mundo
Que nunca enxergou as tuas palavras
Nem saboreou as lágrimas que escorrem das tuas feridas
Apago a luz que acendi junto ao teu busto de granito
Esperando que o fumo do seu suspiro vá ao encontro do teu coração

Que está sempre contigo em cada um dos quatro cantos do mundo
Que já beberam o sol das tuas sílabas e dos teus parágrafos
E decifraram o significado do teu nome
Que distribuíste juntamente com as palavras
Que atiravas aos pombos, do teu quintal, todas as manhãs

Que é o tudo que tu queres aprender
Que é o teu olhar e tudo o que imagino dele
Que é a exaustão e a liberdade sentida
Da morte que é esta caneta que não é os teus dedos
Da carne salgada, fruto do sangue da sombra do sol-posto
Que dá forma às feições do poema que é o teu rosto.

A quarta declamação foi levada a cabo pela estudante da Escola Secundária João da Silva Correia, Juliana Leite, que declamou muito bem (sentada) dois poemas de Antero de Quental de uma forma muito emotiva e épica, tal como se de uma representação teatral se tratasse.

Para concluir, ficou aquilo que eu chamei a "Cereja no Bolo". Luís de Aguiar, elemento do grupo, escritor e poeta de Pinheiro da Bemposta, Concelho de Oliveira de Azeméis, autor do livro "OS FILHOS RAIANOS" (Palimagem, 2006), que teve a tarefa (in) grata de ser o MC (Mestre de Cerimónias) do nosso grupo, declamou alguns dos poemas da grande poeta Natália Correia, falecida em 1993: Uma declamação pausada mas muito envolvente e comovente, que encerrou o primeiro espectáculo do grupo com chave de ouro e aclamação por parte da imprensa local e do público que assistiu ao espectáculo, em especial.
O ESPECTÁCULO “MAUDITS” (21/10/2006)
Descendo as escadas íngremes da poesia do Século XIX, o grupo TARDE E A MÁS HORAS resolveu apostar numa sessão cultural de homenagem aos denominados Poetas Malditos, ou “Maudits” em Francês, iluminando o caminho obscuro e amaldiçoado dos
Sete poetas que revolucionaram a escrita, transportando para a corrente simbolista, que mais tarde foi responsável pela eclosão do Movimento Surrealista no século XX: A destacar Arthur Rimbaud, Charles Baudelaire, Paul Verlaine, Stéphane Mallarmé, Isidore Ducasse, Tristan Corbière e Villiers de L’isle Adam.

Perante uma plateia atenta e que foi crescendo ao longo do Serão, o grupo de Sara Costa, Tiago Moita, Juliana Leite, Luís de Aguiar, Marco Santos e de um novo elemento, natural de Carregosa, Juliana Pinho, ressuscitaram os pais do Simbolismo e do Surrealismo, ou como sublinhou Luís de Aguiar, o elemento escolhido pelo grupo nesta jornada pelo submundo dos poetas malditos “Foram eles que quebraram todas as regras, em pleno século XIX, que romperam com as regras formais e trouxeram algo de novo para a poesia”

A sessão começou com as participações de Luís de Aguiar e Tiago Moita na declamação de dois poemas de Charles Baudelaire, poeta condenado pelos seus escritos eróticos, cáusticos e provocativos, principal responsável pelo nascimento da poesia simbolista mundial e pelo lançamento das bases do Modernismo. Mundialmente conhecido pela sua obra “As flores do Mal”, Baudelaire ressurge desse jardim proibido num “Convite à viagem”, declamado por Luís de Aguiar e Tiago Moita em conjunto, e nas suas “Tristezas da Lua”, declamado por Tiago Moita a solo.

O Jardineiro das “Flores do Mal” influenciou a rebeldia métrica de Rimbaud e de Ducasse, a musicalidade de Verlaine, o intelectualismo de Mallarmé e a ironia coloquial de Corbière. Marginais à sociedade com hábitos morais condenáveis, foram também os libertadores da língua, cortando as amarras convencionais e criando novas propriedades estilísticas.

Amigo de Rimbaud, poeta com quem partilhou inúmeras experiências e aventuras, Paul Verlaine recebeu uma homenagem pulsante do seu “Esboço Parisiense”, poema declamado por Juliana Leite e uma claridade lírica dos seus “Sois Poentes”, aquando da sua declamação por parte de Luís de Aguiar.

Nesta sessão, Rimbaud eleva-se numa declamação em dueto, protagonizado por Sara Costa e por Tiago Moita, em “Angústia”. Nessa parte, surgiu um pequeno desarranjo, fruto de uma pequena descoordenação da parte de um elemento convidado de nome Nicolau, que se esqueceu de fazer a declamação em Francês inicial de cada um dos poemas a partir da declamação dos poemas de Arthur Rimbaud, mas depressa foi posta de parte com a brilhante declamação do poema “Manhã” por parte de Sara Costa.

Sentado numa cadeira, qual poeta abandonado pela vazio e pelo silêncio que consome as suas feridas, Marco Santos deu início à declamação de alguns fragmentos dos Cantos de Maldoror, do Temível Conde de Lautréamont, pseudónimo de Isidore Ducasse utilizado para assinar os seus poemas e a única obra que escreveu em vida. Uma declamação compassada e melancólica, espelho do modo de ser do poeta que escolheu para homenagear.

Esgueirando-se por entre a multidão, Sara Costa e Juliana Leite deram voz aos atalhos soturnos e intelectuais de Stéphane Mallarmé. Começando com uma “Saudação”, declamado maravilhosamente por Juliana Leite, até terminar como a magnitude lírica do poema “Sinaleiro”, declamado com a mesma fluidez e brilhantismo da sua colega, por Sara Costa.

Fleumática e Fabulosa talvez sejam os adjectivos que melhor personificam a declamação poética de Juliana Pinho, o mais recente elemento do grupo, aos poemas de Tristan Corbière e Villiers de L’Isle Adam. Com a sua sintaxe sincopada e os seus gritos bizarros, Juliana Pinho acabou por conseguir transportar a alma atormentada de cada poema destes dois grande poetas malditos para os olhos dos espectadores atentos e estupefactos com a sua estonteante e deslumbrante actuação de uma rapariga que, em poucos minutos, revelou um talento natural não só para a poesia como também para a representação dramática.

Terminadas as sessões de declamação surgiu uma inesperada surpresa: pela primeira vez surgiu uma imprevista interacção entre o público e o grupo, devido a uma interpolação de uma espectadora sobre o tema da sessão. Algo de inesperado mas que demonstrou pela primeira vez uma interacção muito importante para o grupo em sessões futuras.
ENTREVISTA A FERNANDO VELOSO (18/11/2006)
Fugindo em direcção a uma corrente cultural, diferente da seguida nas duas sessões anteriores, o grupo TARDE E A MÁS HORAS resolveu apostar num formato diferente: a entrevista, um tipo de texto jornalístico que o grupo decidiu apostar nesse mês de forma a variar a sua actividade na Livraria Entrelinhas. Nesse mês o convidado foi o célebre pintor português, natural de S. João da Madeira, Fernando Veloso.

Fernando Veloso é um pintor que se tem destacado por inúmeras exposições colectivas nacionais e internacionais. Segundo palavras do autor, o caminho pelas artes surgiu por acaso, numa altura em que Fernando Veloso não tinha ainda qualquer perspectiva profissional “Nunca quis ser nada em especial, mas as maçãs não aparecem de geração espontânea”. Aliado o seu gosto especial pelo desenho, que foi cultivando, nos tempos livres, com a oportunidade de expor pela primeira pela primeira vez e, acidentalmente, no Bar Pede Salsa, onde “ganhava uns trocos a lavar pratos e copos”, Veloso foi definindo o seu rumo artístico a caminho de um maior aperfeiçoamento.

Chegado o ano de 1995, Fernando Veloso termina a sua Licenciatura em Ensino de Educação Visual e começa a dedicar-se à pintura, expondo de uma forma regular as suas telas em Restaurantes, Bares e em outras montras colectivas.

Rejeitando qualquer tipo de etiqueta ou fórmula conceptual que definisse o seu estilo e as suas obras, o pintor sanjoanense, e também professor de Educação Visual admitiu, porém, enquadrar-se num certo “Expressionismo Figurativo”, traduzido essencialmente em Anjos e Demónios Seminus: “Este tema sempre me cativou.” Apesar de ter tido uma certa formação católica, o artista confessou acreditar numa força superior e em todas as religiões.

Sem se importar em procurar qualquer tipo de argumento para pintar, Fernando Veloso afirma que só lê o quadro, depois da obra estar concluída, desmistificando a ideia pré-concebida de que o artista concebe a sua obra propositadamente para produzir uma determinada reacção, “Na maior parte das vezes, não é intencional e se me perguntam o que está por detrás de uma tela minha eu respondo que não está atrás mas à frente, pois o quadro é somente o ponto de partida para a interpretação de cada um.”

O nú é um dos temas recorrentes de Fernando Veloso, quer através da representação de um anjo, de um demónio ou de um simples ser humano, experimentando “transparências” bem como a nudez das suas figuras, de modo a inspirar uma aparência de sensualidade e não de sexualidade. Pois, segundo o artista, o segredo está “em saber pensar no homem e na mulher como se estivessem num bailado.”

Repetição e monotonia são palavras que não rimam nem se enquadram com a actividade de Veloso “Procuro não estar sempre a fazer a mesma coisa”, vinca. Por isso, neste momento, Veloso abandonou os corpos humanos esculpidos em árvores para se dedicar à temática anjo e demónio, bem e mal.

Quanto ao ambiente gerado pela entrevista, devo dizer que não estava à espera de tamanha atmosfera de satisfação, interactividade e de riso nessa sessão. Mérito da maneira de ser inquieta e irreverente do entrevistado que temperou bastante a entrevista com uma boa dose de sentido de humor e de à-vontade, não só fruto do seu estado de espírito, mas também dos espectadores que o questionaram, juntamente com alguns elementos do Grupo, mas também mérito do espírito de moderação e naturalidade de Sara Costa, que vestiu o papel de entrevistadora numa sessão classificada como uma das melhores sessões alguma vez elaboradas pelo Grupo TARDE E A MÁS HORAS.

O CORPO E A MENTE NAS ARTES MARCIAIS (16/12/2006)


Da poesia para a pintura. O grupo TARDE E MÁS HORAS resolveu virar-se para o Oriente, mais propriamente para as Artes Marciais, um tema relacionado não só ao desporto mas também à saúde e ao esoterismo, como os mestres convidados acabaram por referenciar.

Regressando à entrevista, um formato que culminou num grande sucesso para o grupo, moderado mais uma vez por Sara Costa, a sessão iniciou-se com a abordagem ao Shaolin, uma arte marcial milenar provinda dos templos Budistas Chineses, comentada por Augusto Pinto, Mestre de Shaolin nascido em Angola em 1967, residente em S. João da Madeira há cerca de trinta anos. Sua incursão pelas artes marciais começou há 24 anos, com o TAE-KON-DO, ingressando mais tarde no KUNG-FU e no Shaolin, exercitando também TAI CHI. Para auxiliar melhor a sua dissertação, Augusto Pinto serviu-se de um projector e de um trabalho sobre o shaolin em PPS, que realçou de uma forma moderna a origem e as funções dessa arte marcial oriental.

Representando o VIET VOO DAO, estava o mestre Júlio, da ARMA, que realçou a importância da transmissão de valores éticos fundamentais para a construção do carácter da personalidade no ser humano, bem como o equilíbrio: um elemento tão fundamental para garantir a concentração e a autodisciplina essenciais para a boa prática não só dessa arte marcial de origem vietnamita, mas de qualquer arte marcial em particular. Um discurso bastante expressivo e emotivo, que, infelizmente, não foi completado com a explicação acerca da origem e das diferenças entre esta arte marcial oriental e os outros tipo de artes marciais.

Relativamente ao TAI CHI, a explicação foi levada a cabo pelo mestre Luís Rodrigues, mestre de artes marciais, nascido no Porto em 1958, praticante de Shaolin desde 1978 e de Tai Chi desde 1992, altura em que foi estudar essa arte marcial para a China, em CHEN JIA GOU, dando, neste momento, aulas sobre essa arte marcial peculiar na sede nacional de Artes Marciais Chinesas do Porto, na Universidade Católica do Porto e, há mais de 20 anos, na Escola Secundária Aurélia de Sousa no Porto. Na sua interpelação, Luís Rodrigues explanou de uma forma natural e concisa, não só a origem do Tai Chi com as vantagens da sua prática para a saúde, quer física quer espiritual, para o ser humano: Um orador exímio que não se mostrou incomodado com algumas questões feitas pelo público e que terminou uma das melhores e mais interactivas sessões culturais do grupo, com uma pequena demonstração de Tai Chi: Uma demonstração que encerrou com chave de ouro uma noite fria de Dezembro, marcada não só pela euforia da época natalícia mas também pelo prazer da cultura, servida numa sessão memorável e extremamente interactiva e empolgante.

quinta-feira, 8 de março de 2007

LEMBRAR ANTÓNIO RAMOS ROSA

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

não posso adiar o coração

de Viagem através de uma Nebulosa, 1960

segunda-feira, 5 de março de 2007

TEM A PALAVRA A GARGANTA!...

Comunicar foi, porventura, a descoberta mais surpreendente alguma vez feita pelo homem, desafiando até mesmo os limites da sua imaginação. Longe estaria de imaginar a mudança que esse poder iria trazer na sua vida e os desafios que iria causar à sua imaginação: Desde os tempos dos homens das cavernas, quando o homem começou a exprimir as suas ideias e visão do mundo através da palavra e do gesto, do desenho, passando mais tarde para a escrita, até descobrir aquela que é considerada a forma mais profunda e universal de comunicação que é a arte, como necessidade de integração e afirmação na sociedade donde vive e pertence e expressão concreta da sua forma de ver e sentir o real e o absoluto, que o homem nunca mais prescindiu dessa descoberta para a sua sobrevivência e meio de descoberta do universo e de si próprio.

Saída das cinzas de um blog com o mesmo nome (apenas começando com o artigo definido feminino singular “a”), “Garganta do silêncio” pretende ser mais que um blog pessoal, fruto de um desejo narcisista de um umbigo escondido por detrás de uma máscara de sonhos, igual a tantas máscaras que ocultam a verdadeira cor dos nossos olhos, sufocam as nossas expressões e cobrem a essência do crepúsculo das sombras do ID, objecto de idolatria e centro falso de um universo que julgamos capazes de descrever numa partícula de um átomo ou numa minúscula casca de noz, a “Garganta” pretende ser neste universo de umbigos e de candeias por acender, um lago (não dos cisnes) no meio de desertos (sem camelos); uma luz ao fundo do túnel para todos os lados (ou para lado nenhum); uma voz por ouvir no meio de quatro paredes (sem tecto, pois as casas já são caras e o dinheiro já nem dá para alicerces quanto mais para tectos), uma palavra por beber, uma lágrima à procura de um olho.

É por essas razões que baptizei (na pia da minha casa-de-banho, pois não tinha dinheiro para pagar um baptismo a sério ao padre da paróquia da minha terra) este blog de “GARGANTA DO SILÊNCIO”: “Garganta” (sem ser funda…pronto, está bem: sem fundo (perdido)), como instrumento de trabalho de um dos mais preciosos dons que a natureza concedeu aos seres vivos que é a fala, e que permitiu o nascimento de um dos milagres (de Fátima, que não é de Felgueiras) que ultrapassou todas as barreiras (100 metros, pelo menos…) do senso comum e a própria imaginação (coitada!...ainda hoje está a estado de choque…): a Comunicação, e “do Silêncio”, como voz muda, mas autêntica, da verdadeira matéria-prima que busca no ser e na vida o sentido da sua forma e o relevo da sua essência (Channel n.º 5, no seu melhor) com o qual é moldada a arte. Trocando por miúdos (que não da Casa Pia…), GARGANTA DO SILÊNCIO pretende ser um canal para todos aqueles que procuram divulgar a sua veia artística e não são escutados, devido ao silêncio da indiferença e apatia de uma sociedade gasta pelo ácido do tédio e pela cegueira do seu próprio umbigo.

Arte e a comunicação são assim fundidos (em lume brando…) num só (um, sai mais barato que dois, segundo a lógica da batata) num blog catalisador de textos em prosa, poemas, notícias de eventos, Humor, fotografia, pinturas, esculturas, manifestos, (ex) citações de autores conhecidos ou desconhecidos, não só publicados do autor desta blog (Semi-domesticado, Vacinado, criado e (in) cubado em cativeiro) mas por todos aqueles que desejem partilhar um pouco da sua veia artística, um pouco das suas lágrimas e sangue (que sempre faz jeito em minha casa para fazer arroz de cabidela), um pouco do seu silêncio, um pouco da sua arte, um pouco do nada que compõe esse grande absoluto que é o tudo, nesta (in) comunidade de todos, para todos e de ninguém.

Por isso, jovem: Tens mais de seis anos e menos de cem? Gostarias de chatear a tua família sem te meteres na droga e assaltar hipermercados e velhinhas à porta da igreja? Queres fazer uma promessa e achas Fátima ou o entroncamento muito longe para o fazeres? Tens poemas escritos e queres revelá-los sem seres acusado de homossexual/Lésbica/Frustrado(a) da vida pelo Opus Dei ou pela malta do teu bairro? Tens máquina fotográfica, estás farto de tirar fotografias a casamentos, Baptizados e à janela da vizinha do lado à espera que ela se dispa, e descobriste um Sebastião Salgado ou um Man Ray dentro de ti? Tens jeito para a pintura, uma costela de Picasso ou de Dali dentro de ti e gostarias de revelar o teu traço artístico sem precisar de expor em Serralves ou na colecção do Joe Berardo? Gostarias de desancar no Novalis, nos românticos, nos simbolistas, nos surrealistas e todos os movimentos artísticos terminados em “ismo” que não suportas e não tens voz? Tens uma aura de Fernando Pessoa ou de Herberto Hélder dentro de ti e gostarias de ver os teus textos em prosa e poemas publicados, assim como textos de escritores e poetas famosos que sempre quiseste conhecer e gostarias de ler para impressionar a tua namorada (o) (consoante os sexos e os gostos) só para ela/ele não ter a mania que tem mais cultura do que tu, só porque ganhou prémios literários, editou livros e lambe o chão por onde Saramago pisa com a sua própria língua, e poderes ganhar um pouco mais de cultura na tua cabeça e impressionar não só a ela mas o povo da tua terra e aquelas donas de casa que só conhecem cultura quando encontram essa palavra escrita na revista Maria ou na Caras? Estás farto de sair às sextas-feiras e sábados a noite, para apanhar bebedeiras de caixão á cova e levar tampas de mulheres cujo único fio de inteligência que os homens conhecem delas é o fio dental, e procuras algo completamente diferente e bom (que não seja um Ferrerro Rouché, trazido por um motorista com idade para ser o teu avô)? Suportas que a sociedade suicide Vah Gogh? Já estás farto de esperar pelo Sr. Godot, mesmo numa casa-de-banho pública? Gostarias de soltar o artista que há em ti, sem te preocupares se vais acabar como a Margarida Rebelo Pinto ou o Dan Brown? Choras por Offellias mesmo antes do primeiro acto e gostas de repetir Filoctetes? Então não esperes, não desesperes mais nem percas tempo…


JUNTA-TE À “GARGANTA”!