sábado, 20 de outubro de 2012

ATÉ SEMPRE, MANUEL ANTÓNIO PINA! (1943-2012)

MANUEL ANTÓNIO PINA (1943-2012)

OS MORTOS

Eu sei, é preciso esquecer,
desenterrar os nosso mortos e voltar a enterrá-los,
os nossos mortos anseiam por morrer
e só a nossa dor pode matá-los.
Tanta memória! O frenesim
escuro das suas palavras comendo-me a boca,
a minha voz numerosa e rouca
de todos eles despreendendo-se de mim.
Porém como esquecer? Com que palavras 
e sem que palavras?
Tudo isto (eu sei) é antigo e repetido; fez-se tarde
no que pode ser dito. Onde estavas
quando chamei por ti, literalidade?
E todavia em certos dias materiais
quase posso tocar os meus sentidos
tão perto estou, e morrer nos meus sentidos,
os meus sentidos sentido-me com mãos primeiras
terminais.

Manuel António Pina
Os Livros
Assírio&Alvim
2003

Tu não morreste porque os poetas não morrem, tal como a poesia.
Até sempre, Manuel!

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