quarta-feira, 11 de junho de 2014

"O POEMA" de HERBERTO HELDER


O POEMA

O poema cresce incessantemente 
na confusão da carne.
Sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto.
Talvez como o sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor. 
Rios, a grande paz exterior das coisas,
folhas dormindo o silêncio 
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único, 
invade as casas deitadas nas noites
e as luzes e as trevas em volta da mesa
e a força sustida das coisas 
e a redonda e livre harmonia do mundo.
- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.

- E o poema faz-se contra a carne e o tempo.

HERBERTO HELDER



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