domingo, 26 de fevereiro de 2017

Poema "ARTE POÉTICA" de Tiago Moita (2017)


ARTE POÉTICA

O poema não nasce
do murmúrio da cinza
ou da cópula do fogo
que corre nas veias das palavras

O poema não cresce 
do êxtase dos quatro elementos
ou do incêndio das feridas
transforma-se em Cosmos
com o silêncio dos búzios

O poema não pergunta
nem responde 
à sublimação dos espelhos
e às epifanias dos números
reage contra a inércia do mundo
e a apatia das sombras

É sal, espinho, espelho, flor
carne, sémen, bolor. seiva
antes da menstruação do verbo
que pariu Deus

O poema é poema
antes da invenção das línguas
e da tradução dos ventos
Metanoia universal
do Tudo o Que É
Foi 
e virá a Ser.

O poema existe
o poema morre
para voltar a ser poema
o poema transfigurar-se
o poema é tudo
o poema sabe
o poema
é.

TIAGO MOITA
"Metanoia"
Colecção "Prazeres Poéticos"
Chiado Editora
2016

Prestes a ser editado e distribuído em todas as livrarias de Portugal e do Brasil a partir de Março de 2017. 

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Poema "EPIFANIA BOREAL" de Tiago Moita (2017)


EPIFANIA BOREAL

Mergulhei num sono de prata
para encontrar uma epifania
do nascimento de Vénus
na noite dos teus olhos

Naveguei num mantra tibetano
até à raíz de um fogo líquido 
oculto na epiderme dos sonhos
tatuados no êxtase deste verso

Escalei montanhas de dúvidas
para escutar o eco do sal
que brotou quarto minguante 
no lugar do teu sorriso

Procurei-te numa palavra
e só no teu coração descobri

Que tudo o que é belo
é um reflexo da rosa que somos
que tudo o sonho
é o fruto proibido do que sonhamos
e tudo o que sinto aqui e agora
resume-se na memória de uma estrela
que transcende todas as palavras
que esculpi deste silêncio.

TIAGO MOITA
"Metanoia"
Colecção "Prazeres Poéticos"
Chiado Editora
2017

Prestes a ser distribuído em todas as livrarias portuguesas e brasileiras a partir de Março de 2017.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Poema "ÁGAPE" de Tiago Moita (2017)


ÁGAPE

Desliga-te de tudo
menos deste instante
abdica-te dessa bruma ácida
que consome o que vales
e regressa ao princípio do Nada
numa respiração prânica 
até ao centro de ti

Concentra-te...

Observa-me até não observares mais nada 
neste horto de urzes
que não seja o lusco-fusco
desse fumo invisível e amendoado
que brotou das reticências
de cada um de nós

Relaxa...

Deixa-te invadir pela solidão avulsa
deste abraço sinestésico
que devolvemos ao coração do verbo
que dividiu a nossa unidade 
com uma maçã

Desperta...

Voa sem asas até ao princípio do Todo
e beija o átomo primordial
antes de sucumbir ao êxtase da lava 
condensa a eternidade num segundo
e a sublimação do fogo menstruado 
de um desejo serpentário 
num orgasmo de uma estrela
para que, depois de renderes a guarda
aos teus sentidos,
descubras que a tua metade maior 
é o reflexo de um céu que já existe 
dentro de ti.

TIAGO MOITA
"Metanoia" 
Colecção "Prazeres Poéticos"
Chiado Editora
2017

Prestes a ser distribuído em todas as livrarias de Portugal e do Brasil a partir de Março de 2017.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Poema "O PRIMEIRO POEMA" de Tiago Moita (2017)


O PRIMEIRO POEMA

O primeiro poema que li de ti
não tinha palavras nem espaços
apenas silêncios oblíquos
em margens feridas
pelo branco grito
da água

O primeiro poema que li de ti
não tinha cor nem cheiro
nem fogo nas sílabas
apenas sal e sangue
no lugar das lágrimas

O primeiro poema que li de ti
não tinha braços nem pernas
nem mãos nem dedos 
apenas fios de teia
e uma bússola ao peito

O primeiro poema que li de ti
não tinha ponteiros nem estradas 
apenas mapas-múndi
de labirintos e legendas

Tinha apenas sol e lua num rosto 
esperanto num sorriso
e asas abertas nos olhos 

Tinha feridas essenciais
na ponta dos dedos
e corações sem relógios
 na palma da mãos

Tinha universos inexpugnáveis
e lanternas acesas em florestas virgens

Tinha tudo num meio de nadas 
vazio e absoluto no ventre
de uma chama

Não era simples nem abstrato 
era claro como o grito de 
de uma lágrima 

Silhueta de uma alma
canto de pássaro engaiolado

Era sentido
era corpo
era um nome 
eras tu.

TIAGO MOITA
"Metanoia"
Colecção "Prazeres Poéticos"
Chiado Editora
2017

Em todas as livrarias de Portugal e do Brasil a partir de Março.