Dificilmente esquecerei o dia de ontem, aquele 21 de Outubro de 2014 no Neptúlia Bar em São João da Madeira. Se, por ventura, existia alguma nesga de dúvida, uma pequena nuvem de pessimismo a respeito do êxito desta iniciativa que eu, mais o meu amigo Edmundo Silva, começámos a 20 de Maio deste ano, precisamente neste bar, foi dissipada em menos de duas horas e meia, como uma gota de água engolida pelas labaredas rubras de uma fogueira sem sono. Naquela noite de pura partilha, silêncio, euforia, intimidade e, acima de tudo, Poesia, ninguém ficou indiferente ao que se sentiu naquela sessão.
Se a Poesia, por si só, já fluía sossegada nas sessões anteriores, como um rio tranquilo numa tarde primaveril a caminho da sua foz, naquela noite assumiu-se como um vendaval de sentimentos, emoções e desassossegos como nunca imaginei encontrar em São João da Madeira.
Em pouco mais de duas horas e meia escutou-se religiosamente o desassossego de Herberto Hélder, Nuno Júdice e Fernando Pessoa, revisitou-se a melancolia de Álvaro de Campos, a impetuosidade de José Régio, a força de uma palavra em Eugénio de Andrade e Manuel António Pina, o pensamento poético do saudoso António Ramos Rosa, a revolta lírica de Manuel Alegre - transporta para os tempos de hoje - e a insatisfação contemporânea de Sara F. Costa.
Soltou-se a voz a poetas consagrados e desconhecidos, presenças habituais e forasteiros estreantes nestas andanças, principalmente jovens, onde nenhuma palavra ou poema foram ditos por mero acaso.
Deu-se voz à poesia infantil de João Pedro Méssender, o amor e o erotismo andaram de mãos dadas na poesia de Alberto Pimenta e Paul Leminsky para se assistir, em êxtase e esplendor, à exaltação do sentimento patriótico português, através de uma declamação apoteótica e efusiva de três poemas da "Mensagem" de Fernando Pessoa que não deixou ninguém indiferente e (quase) sem fôlego.
Mais que uma simples tertúlia, a noite de ontem foi um intervalo de êxtase poético de pura "liberdade livre" (ou "liverdade"), que terminou com "Pastelaria" de Mário de Cesariny como cereja no topo de uma sessão que ficou para sempre marcada nas mentes e nos corações de quem participou, ou simplesmente assistiu, assim como na memória das estrelas que brindaram este "Poesia à Solta" com o seu brilho celeste.
Próxima paragem: "Um Café com...Poesia" na Confeitaria Colmeia! Terça-Feira, dia 04.11.2014 a partir das 21H30.
Conto convosco!
Tiago Moita
Aqui ficam as fotos do evento:



