terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

POEMA INÉDITO DE FILIPA LEAL



Porque buscamos no quotidiano uma estrada onde se repita o amor e a casa de algum Verão. Porque a memória tem sinais de trânsito e às vezes falamos muito e alto quando está vermelho para recordar, e chamamos os amigos e de repente fica amarelo sem sabermos como, e no fim do dia, quando nos deitamos, cai o verde e tudo avança e as recordações são em vez do sono, são em vez da vida, são em vez do verbo. Porque também nós temos montanhas e rios assinalados e também em nós há itinerários principais e secundários e ruas que vão da cabeça aos pés quando a mão desejada nos percorre como carro de brincar. Porque também nós desejamos um novo aeroporto onde pousar a cabeça, ou pelo menos algumas obras no aeroporto onde desajeitadamente procuramos aterrar. Porque mesmo com quatro ou vinte auto-estradas continuamos a ter o caminho para o tanque onde mergulhávamos na infância. Porque andamos todos à procura uns dos outros dentro e fora de quem somos e parece que nos desencontramos, que paramos na estação de serviço errada, a 10 km, sempre a olharmos para o relógio, a 10 km, na direcção uns dos outros, a 10 km mas na estação de serviço errada. Porque o limite do corpo é o desenho do mapa e às vezes apetece rasgar, omitir, estender a fronteira, mas para isso há a guerra, porque imediatamente fora desse limite à outros e outros países invadidos por nós. Porque no fundo desejamos apenas ser conquistados. Porque os países conquistados conseguem mexer no mapa e não ter culpa. Porque os países conquistados se reconstroem depois da guerra e antes do recomeço do amor.

Somos um mapa circular, humano e excessivo.

FILIPA LEAL
2008

POEMA "ALCOOLISMO" DE NATÁLIA CORREIA


"ALCOOLISMO"

Num país de beberrões
em que reina o velho Baco
se nos tiram os canjirões
ficamos feitos num caco.

E querem os deputados
com um ar beatério
que fiquemos desmamados
quais anjos num baptistério.

Se o verde e o tinto são
as cores da nossa bandeira,
ai, lá se via a nação!
Se acabar a bebedeira.

De abstémia não se faça
A lex deste plenário
Que o direito à vinhaça
esse é consuetudinário.

NATÁLIA CORREIA
(1923-1993)

NONA SESSÃO POÉTICA MENSAL "FUGAS POÉTICAS" NO NEPTÚLIA BAR EM SÃO JOÃO DA MADEIRA (17.02.2015)


Depois do grande sucesso do último "FUGAS POÉTICAS" na Confeitaria Colmeia na primeira terça-feira deste mês, as noites poéticas mensais em São João da Madeira regressam em força na próxima semana!

A segunda noite poética de Fevereiro começa já na terça-feira da próxima semana, dia 17 de Fevereiro, a partir das 21H30, no Neptúlia Bar em São João da Madeira.

Nessa sessão, tal como aconteceu na outra, os desafios mantêm-se: 

1. Dizer pelo menos um poema da vossa autoria ou de um(a) poeta do vosso coração, de cor e salteado nessa sessão.

2. Dizer um poema sobre o HUMOR (Tema escolhido na sessão poética anterior).

NOTA: Estes desafios são FACULTATIVOS! Aqueles que os aceitaram, aceitam de sua livre e espontânea vontade. Quem aceitar o segundo, terá o primeiro quarto de hora dessa sessão para dizer o poema do tema escolhido.

Quem quer participar no desafio?

Venha celebrar a festa da Poesia e soltar os poemas que habitam dentro de vós e no silêncio das gavetas e dos livros!

A participação é livre e a entrada é gratuita!

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

SOBRE A SEXTA EDIÇÃO DAS "FUGAS POÉTICAS" NA CONFEITARIA COLMEIA (Terça-Feira, 03.02.2015, 21H30)

UM SOL NO SEIO DO INVERNO

Poderia ser uma noite para esquecer. Folha esborratada pelo crepúsculo da vergonha num livro ignoto; lusco-fusco titubeante de um momento sem eco nem brilho; fiasco de uma peça de teatro adiada pela mão cega do Destino. Poderia ser uma noite assim...mas não foi.

Tinham passado quinze minutos depois da hora habitual quando eu, mais a minha mãe, tínhamos acabado de chegar à Confeitaria Colmeia, naquela terça-feira gélida da primeira terça-feira de Fevereiro. Pela rigidez do Inverno que se fazia sentir pelas ruas e avenidas da cidade, pensava no pior. A fraca afluência inicial e o compasso de espera pela nossa chegada tinha o sabor agreste de um mau augúrio. Mal entrei, senti todas as minhas dúvidas de gesso a desfazerem-se como pequenos montes de folhas de Outono, levadas por um língua de vento faminta.

Como flores se espreguiçando e revelando a sua beleza ao céu, adivinhando por instinto a chegada da Primavera, a minha entrada naquele estabelecimento coincidiu com a chegada de mais pessoas e com a descoberta de caras novas, muitas delas trazidas por fregueses habituais das "Fugas Poéticas", o que me deixou muito satisfeito. O que parecia uma confeitaria transformou-se num daqueles cafés do princípio do século passado, fervilhando de intelectuais, escritores, poetas,artistas ou simples amantes da Cultura, das Letras e das Artes, ansiosos pelo começo de mais uma tertúlia noctívaga de homenagem à arte de todas as artes: a Poesia.

O toque do sino de um dos fundadores das "Fugas Poéticas" e coordenador daquela noite poética, Tiago Moita colocou em sentido todo aquele silêncio ensurdecedor e inaugurou a sexta edição das "Fugas Poéticas" na Confeitaria "Colmeia" - a primeira sessão sem a designação "Um Café com...Poesia" - com um poema que Natália Correia escreveu durante um debate na Assembleia da República sobre o Alcoolismo, para assim responder ao desafio (facultativo) de iniciar o primeiro quarto de hora com poemas acerca do tema do mês - o humor - e o resultado não se fez por esperar...

Um a um, os poemas ganhavam vida e saltavam dos livros e das folhas ou simplesmente do coração da alma para a boca de todos aqueles que quiseram participar e soltar a Poesia dos véus do Olvido e do silêncio das gavetas e das prateleiras poeirentas de estantes mudas das casas ou das bibliotecas. Desde a poesia sarcástica e satírica de Jorge de Sousa Braga e de João Habitualmente, o humor libertino de Bocage, passando pelo humor poético de Anthero Monteiro, Mário Henrique Leiria, Fábio Brasa, Alexandre O'Neill , Mário de Cesariny e de alguns poetas locais, ninguém ficou indiferente e substituiu muitas das habituais salvas de palmas por salvas de gargalhadas. Mas nem só de humor poético foi feitas essa noite...

Tal como uma corrente que arrasta toda a espécie de natureza, a Poesia circulou e libertou-se por entre todas aquelas pessoas que não pensavam intervir naquela noite. Fosse sentado ou em pé, de um livro, tablet, telemóvel ou mesmo de uma folha, bebeu-se a Poesia de João de Deus, Manuel Bandeira, Filipa Leal, Fernando Pessoa, Pablo Neruda, Maria Gabriela Llansol, Ana Luísa Amaral, Suzamna Guimarães, Orlando Ribeiro, António Gedeão, João Luís Barreto Guimarães, Maria do Rosário Pedreira, Tiago Moita, Novalis, Mia Couto, Edmundo Silva, Khalil Gibran, Pedro Abrunhosa, Nuno Júdice, Miguel Torga e Fausto Guedes Teixeira, passando por poemas de (novos) poetas desconhecidos e de uma interpretação fabulosa do poema "As minhas Asas" de Almeida Garrett por parte do professor Josias Gil - um das maiores personalidades sanjoanenses e um dos maiores vultos da Cultura em São João da Madeira que comoveu, encheu de orgulho, respeito e gratidão uma planteia emocionada que não resistiu a ovacionar de pé a sua prestação, fazendo, naquela noite, aquela confeitaria, não uma lua oculta num ventre de neve mas antes um sol no seio do Inverno.

PRÓXIMA PARAGEM: Neptúlia Bar, dia 17 do corrente mês às 21H30!

O tema (facultativo) mantêm-se: HUMOR.

Preparem-se para mais surpresas!...

Aqui ficam alguma fotos do evento.       


Tiago Moita lendo o poema sobre o Alcoolismo
de Natália Correia.

(Foto de Raquel Gomes de Pinho)


Amílcar Bastos lendo o poema "Bunda ou Peito"
de Fábio Brasa


O doutor Magalhães dos Santos lendo o poema
"A queda" da sua autoria.


Clara Oliveira lendo o poema "Dentro" de Anthero 
Monteiro


Susana Moura lendo um poema da sua autoria


David Morais Cardoso lendo o poema "Gomes de Sá"
de João Habitualmente.


M Conceição Gomes lendo um poema de Pedro
Branco de Almeirim


Um aspecto do público presente na sessão.


Isabel Barbosa dizendo um poema de Nuno Tolentino


Raquel Gomes de Pinho dizendo um poema
de Bocage.


Idiema Salgueiro dizendo um poema


O Dr. Francisco Costa dizendo um poema do
poeta brasileiro Manuel Bandeira


Manuel Dias dizendo um poema de Miguel Torga


Vânia Soares dizendo o poema "Língua Mar"
do poeta brasileiro Adriano Espínola


Manuel Dias - um poeta estreante nas "Fugas
Poéticas" - lendo o poema "Não me conheço"
da sua autoria.


Rosa Familiar lendo um poema de Joel Lira


Um estreante dizendo um poema da sua autoria.


Parte do público presente na sessão a assistir à leitura de um poema
(estiveram naquela noite perto de QUARENTA PESSOAS)


Joana Costa lendo o poema "Quotidiano" de
Filipa Leal (Extraído da colectânea poética
"Diga Trinta e Três" dos Cadernos do Campo
Alegre, 2008)


O Dr. Flores Santos Leite lendo um poema 
de Fernando Pessoa.


Carlos Pinho lendo o poema "Se me esquecerei"
de Pablo Neruda.


O doutor Luís Quintino lendo o poema 
"Onde vais Drama-Poesia?" de Maria Gabriela
Llansol (também leu Novalis)


O Professor Josias Gil entre os presentes.


David Morais Cardoso e Clara Oliveira 
lendo um poema de Ana Luísa Amaral


Edmundo Silva - um dos fundadores e coordenadores
das "Fugas Poéticas" - lendo o poema "Uma Questão
a não pensar" de Suzamna Guimarães.


Raquel Gomes de Pinho e Jorge Martins lendo um
poema em conjunto.


Parte do público presente na sessão


O doutor Ângelo Campelo dizendo o célebre
"Poema a Galileu" de António Gedeão.


Idiema Salgueiro lendo um poema de Maria do
Rosário Pedreira


Joana Painço lendo o poema "Elegia de um Adeus"
do livro "Post Mortem e Outros Uivos" 
(WorldArtFriends/Corpos Editora, 2012)
de Tiago Moita.


M Conceição Gomes lendo o poema "Ser Poeta"
de Florbela Espanca.


Joana Costa e Clara Oliveira lendo, em conjunto,
o poema "QUEDA DO GOVERNO" de
João Habitualmente.


Edmundo Silva lendo o poema "O Nómada" do seu
primeiro livro de poesia "Epifania ao Sol"
(WorldArtFriends/Corpos Editora, 2012)
em homenagem ao Prof. Josias Gil.


O Professor Josias Gil a assistir à homenagem.


O Professor Josias Gil lendo o poema "As minhas
Asas" de Almeida Garrett


Um dos sócios da Confeitaria Colmeia dizendo
uma quadra da sua autoria

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

SEXTA SESSÃO POÉTICA MENSAL "FUGAS POÉTICAS" NA CONFEITAIA COLMEIA EM SÃO JOÃO DA MADEIRA (03.02.2015)



Depois do grande sucesso do último "POESIA À SOLTA" no Neptúlia Bar na terceira terça-feira deste mês, as noites poéticas mensais em São João da Madeira regressam em força na próxima semana com uma nova designação, independentemente do espaço onde se realizam: FUGAS POÉTICAS!

A primeira noite poética de Fevereiro começa já na terça-feira da próxima semana, dia 3 de Fevereiro, a partir das 21H30, na Confeitaria Colmeia em São João da Madeira.

Nesta sessão, tal como aconteceu na outra, os desafios mantêm-se:
  1. Dizer pelo menos um poema, da vossa autoria ou de um (a) poeta do vosso coração, de cor e salteado nessa sessão!
  2. Dizer um poema sobre o HUMOR (tema escolhido na sessão poética anterior)
NOTA: Estes desafios são FACULTATIVOS! Aqueles que os aceitarem, aceitam de sua livre e espontânea vontade! Quem quiser aceitar o segundo, terá o primeiro quarto de hora desta sessão para dizer o poema do tema escolhido. 

Quem quer participar neste desafio?

Venham celebrar a festa da Poesia e soltar os poemas que habitam dentro de vós e no silêncio das gavetas dos livros!

Novo logotipo das "Fugas Poéticas"


NOVO LOGOTIPO DAS "FUGAS POÉTICAS"

No final de Janeiro de 2015, os mentores e coordenadores das noites poéticas nos cafés e bares de São João da Madeira decidiram escolher, depois de aprovado por uma "larga maioria de votos" o logotipo oficial da iniciativa: a partir do próximo mês deixarão de existir nomes diferentes para cada uma das noites poéticas mensais na Confeitaria Colmeia e no Neptúlia Bar em São João da Madeira e passará a ter um único nome: "FUGAS POÉTICAS" - o mesmo nome da página comunitária oficial desta iniciativa na rede social Facebook.

Assim, a partir de Fevereiro deste ano, todos os meios de promoção do evento acima mencionado contarão com este logotipo no canto superior direito de cada cartaz, por exemplo.

Os mentores e coordenadores das "Fugas Poéticas" em São João da Madeira:

Tiago Moita

Edmundo Silva

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

POEMA "IF/SE" DE RUDYARD KIPLING


"SE"

"Se podes conservar o teu bom senso e a calma
No mundo a delirar para quem o louco és tu...
Se podes crer em ti com toda a força de alma
Quando ninguém te crê...Se vais faminto e nu,

Trilhando sem revolta um rumo solitário...
Se à torva intolerância, à negra incompreensão,
Tu podes responder subindo o teu calvário 
com lágrimas de amor e bênçãos de perdão...

Se podes dizer bem de quem te calunia...
Se dás ternura em troca aos que te dão rancor
(mas sem a afetação de um santo que oficia
Nem pretensões de sábio a dar lições de amor)...

Se podes esperar sem fatigar a esperança...
Sonhar, mas conservar-te acima do teu sonho...
Fazer do pensamento um arco de aliança 
Entre o clarão do inferno e a luz do céu risonho...

Se podes encarar com indiferença igual
O triunfo e a derrota, eternos impostores...
Se podes ver o bem oculto em todo o mal
E resignar sozinho o amor dos teus amores...

Se podes resistir à raiva e à vergonha
De te envenenar as frases que disseste
E que um velhaco emprega eivadas de peçonha
Com falsas intenções que tu jamais lhe deste...

Se podes ver por terra as obras que fizeste
Vaiadas por malsins, desorientando um povo,
E sem dizeres uma palavra, e sem um termo agreste,
Voltares ao princípio a construir de novo...

Se puderes obrigar o coração e os músculos
A renovar um esforço há muito vacilante,
Quando no teu corpo, já afogado em crepúsculos,
Só existia a vontade de comandar avante...

Se vivendo entre o povo és virtuoso e nobre...
Se vivendo entre os reis, conservas a humildade...
Se inimigo ou amigo, o poderoso e o pobre
São iguais para ti à luz da eternidade...

Se quem conta contigo encontra mais que a conta
Se podes empregar os sessenta segundos
Do minuto que passa em hora de tal monta
Que o minuto se espraie em séculos fecundos...

Então, ó ser sublime, o mundo inteiro é teu!
Já dominaste os tempos, os reis, os espaços!...
Mas, ainda para além, um novo sol rompeu,
Abrindo o infinito ao rumo dos teus passos.

Pairando numa esfera acima deste plano,
Sem receares jamais os teus erros te retomem,
Quando já nada houver em ti que seja humano,
Alegra-te, meu filho, então serás um homem!"

RUDYARD KIPLING
Escritor e poeta Britânico
Vencedor do Prémio Nobel da Literatura em 1907
(1865-1936)