- Dizer pelo menos um poema, da vossa autoria ou de um(a) poeta do vosso coração, de cor e salteado nessa sessão.
- Dizer um poema sobre a LIBERDADE (tema escolhido na sessão poética anterior).
terça-feira, 21 de abril de 2015
DÉCIMA PRIMEIRA "FUGA POÉTICA" NO NEPTÚLIA BAR EM SÃO JOÃO DA MADEIRA (21.04.2015)
AVISO À NAVEGAÇÃO
Depois do grande sucesso da 8ª "Fuga Poética" na Confeitaria "Colmeia" na primeira terça-feira deste mês, as noites poéticas mensais em São João da Madeira regressam em força no dia 21 DE ABRIL, terça-feira do mês, para a 11ª "FUGA POÉTICA" no NEPTÚLIA BAR, a partir das 21H30 em SÃO JOÃO DA MADEIRA!
A partir desta sessão vamos também ler poemas do maior poeta que marcou a Poesia e Literatura da segunda metade do século XX: HERBERTO HÉLDER.
Nesta sessão, tal como aconteceu na outra, os desafios mantêm-se:
NOTA: Estes desafios são FACULTATIVOS!Aqueles que o aceitarem, aceitam de sua livre e espontânea vontade!Quem aceitar o segundo, terá o primeiro quarto de hora para dizer o poema do tema.
Quem quer participar no desafio?
Venham connosco celebrar a festa da Poesia e soltar os poemas que habitam dentro de vós e no silêncio das gavetas e dos livros!
domingo, 19 de abril de 2015
POEMA "O POEMA" DE HERBERTO HELDER
"O POEMA"
Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne.
Sobe ainda em palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
rios, a grande paz exterior das coisas,
folhas dormindo o silêncio
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em se regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as casas deitadas nas noites
e as luzes e as trevas em volta da mesa
e a força sustida das coisas
e a redonda e livre harmonia do mundo.
- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra a carne e o tempo.
(...)
HERBERTO HELDER
(1930-2015)
"Poesia - O Amor em Visita"
1958
POEMA "A LIBERDADE" DE KHALIL GIBRAN
"A LIBERDADE"
E um orador disse.
"Fala-nos da Liberdade."
E ele respondeu:
As portas da cidade e junto à vossa lareira já vos vi prostrados
a venerarem a vossa própria liberdade.
Tal como os escravos se curvam perante um tirano
e os louvam enquanto ele os açoita.
Ah, no bosque do templo e à sombra da cidadela
já vi os mais livres de entre vós
usarem grilhetas.
E o meu coração sangrou por dentro;
pois só se pode ser livre
quando o desejo de encontrar a liberdade se tornar a vossa
força
e quando deixardes de falar de liberdade
como objectivo e plenitude.
Sereis verdadeiramente livres
não quando os vossos dias não tiverem preocupação
nem as vossas noites necessidades ou mágoas.
Mas quando estas coisas rodearem a vossa vida
e vós vos ergais acima delas, despidos e libertos.
E como vos podereis erguer para lá dos dias e das noites
a menos que quebreis as cadeias que,
na aurora do vosso conhecimento,
apertaste à volta do entardecer?
Na verdade, aquilo a que chamais liberdade
é a mais forte dessas candeias,
embora os seus aros brilhem à luz do sol
e vos ofusquem a vista.
E o que é isso senão fragmentos do vosso próprio ser
de que vos libertareis para vos tornardes livres?
Se trata apenas de uma lei injusta que ireis abolir,
essa lei foi escrita com a vossa mão apoiada na vossa fronte.
Não podereis apagá-la queimando os livros das leis,
ou lavando as frontes dos vossos juízes,
embora despejais o mar sobre eles.
E se é um déspota que ireis destronar,
certificai-vos primeiro de que o trono erguido dentro de vós
também é destruído.
Pois como pode um tirano mandar
sobre os livres e orgulhosos,
senão exercendo a tirania sobre a liberdade deles
e sufocando-lhes o orgulho?
E se trata de uma preocupação
que quereis fazer desaparecer.
Essa preocupação foi escolhida por vós e não imposta.
E se é um receio que quereis afastar,
a origem desse receio reside no vosso coração
e não na mão daquele que receais.
Na verdade, todas as coisas que se movem
dentro do vosso próprio ser em constante meia união,
o desejado e o receado, o repugnante e o atraente, o perseguido
e o de quem quereis escapar.
Estas coisas movem-se dentro de vós como luzes e sombras,
aos pares, agarradas.
E quando a sombra se desvanece e deixa de ser,
a luz que resta torna-se sombra para uma nova luz.
Por isso, a vossa liberdade quando perde as candeias
torna-se ela própria uma cadeia de maior liberdade.
KHALIL GIBRAN
(1883-1903)
"O PROFETA"
(Edição póstuma: 1923)
terça-feira, 14 de abril de 2015
SOBRE A OITAVA "FUGA POÉTICA" NA CONFEITARIA "COLMEIA" EM SÃO JOÃO DA MADEIRA (07.04.2015)
TROVA DA LIBERDADE QUE PASSA
Poesia e Liberdade sempre foram dois conceitos siameses da condição humana. Energias simétricas provindas da mesma fonte; rios oriundos da mesma nascente em busca da foz da Eternidade, onde apenas os génios e os sábios alcançam, como se já fizessem parte dos seus destinos. Na terça-feira da semana passada, dia 7 de Abril pelas 21H30, pude constatar a veracidade deste meu pensamento na Confeitaria "Colmeia" em São João da Madeira.
A Páscoa tinha acabado, fazia nessa altura dois dias. O tempo revelava-se favorável e apelativo para uma boa razão para sair à noite, conviver com amigos ou voltar a ver caras de tempos pretéritos, quase apagados pela usura da memória colectiva. No "Colmeia", aconteceu um pouco de tudo isso: regressos surpreendentes, misturados entre revelações inesperadas e caras novas, começaram a dar uma nova cor e um outro sabor a um evento, cada vez mais próximo de completar um ano de existência e prestes a ser uma presença viva na Cultura de São João da Madeira.
No meio de uma audiência expectante e curiosa, Tiago Moita e Edmundo Silva deram as boas-vindas às mais de trinta pessoas que assistiram e participaram naquela sessão poética mensal e abriram as hostes com uma pequena dissertação sobre a Liberdade e sobre o poeta homenageado, falecido no final do mês passado e responsável pela transformação da poesia e da literatura contemporânea portuguesa da segunda metade do século XX e do início do século XXI: Herberto Hélder.
Dando mote ao tema mensal de Abril e ao poeta homenageado, os dois fundadores leram o poema "Eu agora mergulho e ascendo como um copo" de Herberto Hélder e o poema "A Liberdade" de Khalil Gibran.Terminadas as leituras, as intervenções não tardaram e, tal como uma brisa clandestina a chegar de mansinho por uma povoação, escutou-se a voz dos poemas de Manuel Alegre, Florbela Espanca, Álvaro de Campos, José Alberto de Sá, Fernando Pessoa, Thiago de Mello, Maria Subtil, Mário Cesariny, António Silva Melo, Aída Araújo Duarte, Manuel Bandeira, Guerra Junqueiro, Alice Queirós, Ana Albergaria, entre uns versos e poemas soltos de alguns poetas locais e desconhecidos - onde até uma ária de Caruso e de Jean Massenet não deixou ninguém indiferente -, numa noite transformada numa trova contínua de homenagem à Liberdade e à Poesia.
PRÓXIMA PARAGEM: Neptúlia Bar, 21 de Abril de 2015, 21H30.
Aqui ficam algumas fotos do evento.
Tiago Moita e Edmundo Silva lendo o poema
"A Liberdade" de Khalil Gibran, depois de terem
lido o poema "Eu agora mergulho e ascendo como
um copo" de Herberto Hélder.
(Foto de Dinis Silva)
Aspecto da mesa dos organizadores das "Fugas Poéticas"
(Foto de Dinis Silva)
Parte do público presente na sessão
(Foto de Dinis Silva)
Carlos Pinho lendo o poema "Trova do Vento
que passa" de Manuel Alegre.
(Foto de Dinis Silva)
A professora Rita Cunha lendo um poema.
(Foto de Dinis Silva)
M Conceição Gomes lendo o poema "Ser Poeta"
de Florbela Espanca.
(Foto de Dinis Silva)
Tavares Ribeiro lendo um dos seus poemas
(Foto de Dinis Silva)
Tiago Moita lendo o poema "A verdadeira Liberdade"
de Álvaro de Campos.
(Foto de Dinis Silva)
António Pinheiro lendo um poema da sua autoria:
"A Musa"
(Foto de Dinis Silva)
Raquel Gomes de Pinho lendo o poema
"Não, só quero a Liberdade" de Álvaro
de Campos.
(Foto de Dinis Silva)
Eduardo - um estreante nas "Fugas Poéticas" -
interpretando uma ária de Ópera de Enrico Caruso.
(Foto de Dinis Silva)
Victor José lendo um dos seus poemas.
(Foto de Dinis Silva)
André de Oliveira lendo o poema "O Sangue
bombeado na loucura" de Herberto Hélder.
A célebre colectânea poética "Ou o Poema Contínuo"
de Herberto Hélder.
(Foto de Dinis Silva)
Catarina Rebelo interpretando ao clarinete a célebre composição
musical "Meditação de Thäis" de Jean Massenet.
(Foto de Dinis Silva)
O doutor Ângelo Campelo dizendo o poema
"Estatutos do Homem" do poeta brasileiro
Thiago de Mello.
(Foto de Dinis Silva)
Isabel Barbosa lendo um poema de Maria Subtil.
(Foto de Dinis Silva)
Tiago Moita e Inês Severino lendo em conjunto
o poema "Exercício Espiritual" de Mário Cesariny.
(Foto de Dinis Silva)
Manuel Dias lendo o poema "Vindima" de António
Silva Melo.
(Foto de Dinis Silva)
Inês Severino assistindo a uma das intervenções.
(Foto de Dinis Silva)
Virgílio Gonçalves lendo o poema
"Não é por acaso" de Alice Queirós.
(Foto de Dinis Silva)
Tiago Moita lendo o poema "O Actor" de
Herberto Hélder.
O doutor Magalhães dos Santos lendo um poema
da sua autoria: "Comunhão Solene".
(Foto de Dinis Silva)
Edmundo Silva lendo o poema "A Paixão
Grega" de Herberto Hélder.
Inês Severino lendo o poema "Poética"
de Manuel Bandeira.
(Foto de Dinis Silva)
Rosa Familiar (Flor Yaleo) lendo "O Poema"
de Herberto Hélder.
(Foto de Dinis Silva)
Maria Fátima Passos lendo o poema "São Apenas
Mãos" de Ana Albergaria.
(Foto de Dinis Silva)
terça-feira, 31 de março de 2015
8ª "FUGA POÉTICA" NA CONFEITARIA COLMEIA EM SÃO JOÃO DA MADEIRA (07.04.2015)
AVISO À NAVEGAÇÃO
Depois do grande sucesso da 10ª "Fuga Poética" no Neptúlia Bar em São João da Madeira na terceira terça-feira do mês de Março, as noites poéticas mensais em São João da Madeira regressam em força no dia 7 DE ABRIL na CONFEITARIA COLMEIA, a partir das 21H30 em SÃO JOÃO DA MADEIRA.
A partir desta sessão vai haver uma grande homenagem poética ao maior poeta, depois de Fernando Pessoa, e aquele que mais marcou a poesia contemporânea da segunda metade do século XX: HERBERTO HÉLDER.
Nessa sessão, tal como aconteceu na outra, os desafios mantêm-se:
- Dizer, pelo menos, um poema de cor e salteado de um poema de um(a) poeta do vosso coração ou da vossa autoria nessa sessão.
- Dizer um poema sobre a LIBERDADE (Tema escolhido na sessão poética anterior)
NOTA: Estes desafios são FACULTATIVOS! Aqueles que os aceitarem, aceitam de livre e espontânea vontade! Quem aceitar os segundo, terá o primeiro quarto de hora desta sessão para dizer o poema do tema escolhido.
Quem quer participar no desafio?
Venham celebrar a festa da Poesia e soltar os poemas que habitam dentro de vós e no silêncio da gaveta e dos livros!
terça-feira, 24 de março de 2015
CONTO "ESTILO" DE HERBERTO HELDER
"ESTILO"
"- Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio...Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro...Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombra, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida...compreende?...a nossa vida, a vida inteira, está ali como...como um acontecimento excessivo...Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos, do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo. O cigarro consome-se, não é?, a calma volta. Mas pode imaginar o que seja isto todas as noites, durante semanas ou meses ou anos?
Uma vez fui ao médico.
- Doutor, estou louco - disse. - Devo estar louco.
- Têm loucos na família? - perguntou o médico. - Alcoólicos, sifilíticos?
- Sim, senhor. O pior. Loucos, alcoólicos, sifilíticos, místicos, prostitutas, homossexuais. Estarei louco?
O médico tinha sentido de humor, e receitou-me barbitúricos.
- Não preciso de remédios - disse eu. - Sei histórias tenebrosas acerca da vida. De que me servem barbitúricos?
A verdade é que ainda não tinha encontrado o estilo. Mas ouça, meu amigo: conheço por exemplo a história de um homem velho. Conheço também a de um homem novo. A do velho é melhor, pois era muito velho, e que poderia ele esperar? Mas veja, preste bem atenção. Esse homem velhíssimo não resignaria nunca do amor. Amava as flores. No meio da sua solidão tinha vasos de orquídeas.
O mundo é assim, que quer? É forçoso encontrar um estilo . Seria bom colocar grandes cartazes nas ruas, fazer avisos na televisão e nos cinemas. Procure o seu estilo, se não quer dar em pantanas. Arranjei o meu estilo estudando matemática e ouvindo um pouco de música. - João Sebastião Bach. Conhece o Concerto Brandeburguês n.º 5? Conhece com certeza essa coisa tão simples, tão harmoniosa e definitiva que é um sistema de três equações a três incógnitas. Primário, rudimentar. Resolvi milhares de equações. Depois ouvia Bach. Consegui um estilo. Aplico-o à noite, quando acordo às quatro da madrugada. É simples: quando acordo aterrorizado, vendo as grandes sombras incompreensíveis erguerem-se no meio do quarto, quando a pequena luz se faz na ponta dos dedos, e toda a imensa melancolia do mundo parece subir do sangue com a sua voz obscura...Começo a fazer o meu estilo. Admirável exercício, este. Às vezes uso o processo de esvaziar as palavras. Sabe como é? Pego numa palavra fundamental. Palavras fundamentais, curioso...Pego numa palavra fundamental: Amor, Doença, Medo, Morte, Metamorfose. Digo-a baixo vinte vezes. Já nada significa. É um modo de alcançar o estilo. Veja agora esta artimanha:
As crianças enlouquecem em coisas de poesia.
Escutai um instante como ficam presas
no alto desse grito, como a eternidade as acolhe
enquanto gritam e gritam.
(...)
- E nada mais somos do que o Poema onde as crianças
se distanciam loucamente.
Trata-se de um excerto de uma poesia? Gosta de poesia? Sabe o que é a poesia? Tem medo da poesia? Tem o demoníaco júbilo da poesia?
Pois veja. É também um estilo. O poeta não morre da morte da poesia. É o estilo.
Está a ouvir como essas enormes crianças gritam e gritam, entrando na eternidade? Note: somos o Poema onde elas se distanciam. Como? Loucamente. Quem suportaria esses gritos magníficos? Mas o poeta faz o estilo.
Perdão, seja um pouco mais honesto. Seja ao menos mais inteligente. Vê-se bem que não estou louco. Eu, não. As crianças é que enlouquecem, e isso porque lhes falta um estilo.
Sabe do que lhe estive a falar? Da vida? Da maneira de se desembaraçar dela? Bem, o senhor não é estúpido mas também não é muito inteligente. Conheço. Conheço o género. Talvez eu já tivesse sido assim. Pratica as artes com parcimónia: não a poesia, mas as poesias. Cultiva-se, evidentemente. Se calhar está demasiado na posse de um estilo. Mas, escute cá, a loucura, a tenebrosa e maravilhosa loucura...Enfim, não seria isso mais nobre, digamos mais conforme ao grande segredo da humanidade?
Talvez o senhor seja mais inteligente do que eu.
HERBERTO HELDER
(1930-2015)
"Os Passos em Volta"
Assírio & Alvim
2009 (1.ª Edição: 1968)
Pedro Lamares lê o conto "Estilo" do livro
"Os Passos em Volta" de Herberto Helder.
POEMA "WE ARE WELCOME TO ELSINORE" DE MÁRIO DE CESARINY
"WE ARE WELCOME TO ELSINORE"
Entre nós e as palavras
Há metal fundente.
Entre nós e as palavras
há hélices que andam
E podem tirar-nos a morte
Violar-nos
Tirar do mais fundo de nós
o mais útil segredo
Entre nós e as palavras
há perfis ardentes
Espaços cheios de gentes de costas
Altas flores ventosas, portas por abrir
E escadas e ponteiros e crianças
sentadas
À espera do seu tempo e do seu
precipício
Ao longo da morada em que habitamos
Há palavras de vida, há palavras de morte
Há palavras imensas que esperam por nós
E outras frágeis, que deixaram de esperar
Há palavras acesas como barcos
E há palavras homens, palavras que
guardam
o seu segredo e a sua posição.
Entre nós e as palavras, surdamente
As mãos e as paredes de Elsinore.
E há palavras nocturnas
palavras gemidos
Palavras que nos sobem elegíveis
à boca
Palavras diamantes palavras nunca
escritas
Palavras impossíveis de escrever
Por não termos connosco
cordas de violinos
Nem todo o sangue do mundo
nem todo o amplexo do ar
E os braços dos amantes escrevem
muito alto
Muito além do azul onde oxidados
morrem
Palavras maternais só sombra só
soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
Entre nós e as palavras, o nosso dever
falar.
MÁRIO DE CESARINY
(1923-2006)
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