segunda-feira, 8 de junho de 2015
SOBRE A DÉCIMA "FUGA POÉTICA" NA CONFEITARIA "COLMEIA" EM SÃO JOÃO DA MADEIRA (02.06.2015)
"FUGAS POÉTICAS: UM ANO AO SERVIÇO DA POESIA EM SÃO JOÃO DA MADEIRA (II)"
Faltavam apenas cinco minutos. O tempo não apresentava sinais de mau humor. O vento estava mavioso, assim como aquela noite de 2 de Junho, terça-feira, pelas 21H30, na Confeitaria "Colmeia" em São João da Madeira. Mal cheguei ao local da décima "Fuga Poética" mensal - e primeiro aniversário deste evento naquele estabelecimento - pressenti uma diminuta afluência que, como passar das horas não passou de uma miragem, de uma ponta à outra da confeitariam encontrei pessoas vindas de cidades da zona do Grande Porto e alguns concelhos vizinhos que afluíram naquela noite àquela sessão poética especial com caras novas a fim de conhecerem a cidade e sentirem de perto a vitalidade e espírito de abertura e partilha que têm transformado as "Fugas Poéticas" num fenómeno local.
Dez minutos depois de ter chegado, o coordenador Tiago Moita abriu a sessão, dando as boas-vindas a todos os presentes, especialmente os estreantes, e abriu as hostes com um poema alusivo ao tema (facultativo) do mês de Junho paras as "Fugas Poéticas": Portugal. Neste caso, o poema "Portugal" de Alexandre O'Neill. E as reacções não se fizeram esperar.
Tal como crianças ansiosas por responder a perguntas simples, um a um, os tertulianos começaram a dar voz aos poemas que trouxeram de casa - ou na memória - e a fazer circular por todo aquele estabelecimento a Poesia de Alexandre O'Neill, Miguel Torga, Pablo Picasso (Sim!É verdade! Além de pintar, Pablo Picasso também escrever a Poesia), Fernando Campos Castro, Oswaldo Montenegro, Nelson Ferraz, Pedro Chagas Freitas, Vasco Graça Moura, Luís de Aguiar, Mário de Sá-Carneiro, Alberto Caeiro, Maria do Rosário Pedreira, António Carlos Santos, Cely Parente, Sara F.Costa, Fernando Pessoa, José Régio, Ruy Belo, Florbela Espanca, Carlos Lacerda, João de Deus, Luana Lua, Maria Teresa Horta, Rabindranath Tagore, João Habitualmente, David Mourão-Ferreira e Agostinho da Silva, entre alguns textos e poemas de poetas locais e desconhecidos, onde a música - desde a mais popular até à mais clássica - complementou e adocicou, juntamente com o (suculento) bolo de aniversário de uma iniciativa que, findos doze largos e intensos meses de vida, demonstrou que continua viva e com pernas para andar durante muito tempo,
PRÓXIMA PARAGEM: Neptúlia Bar, 16 de Junho, terça-feira da próxima semana, 21H30.
Aqui ficam as fotos do evento.
Tiago Moita iniciando a 10ª "Fuga Poética" mensal na Confeitaria
"Colmeia" em São João da Madeira.
(Foto de Virgílio Gonçalves)
Parte do público presente na sessão.
David Morais Cardoso lendo o poema "Retrato"
do célebre pintor Pablo Picasso.
Rogério Barbosa - um estreante nas "Fugas Poéticas"
em São João da Madeira - lendo o poema "No tempo
das flores" de Fernando Campos Castro.
A poeta Alice Queiroz - uma estreante nas "Fugas
Poéticas" em São João da Madeira - lendo um poema
da sua autoria: "Eu sou português aqui".
Luís Quintino lendo o poema "Rosa" de Alexandre
O'Neill.
O poeta Carlos Lacerda - um estreante nas "Fugas
Poéticas" em São João da Madeira - lendo o poema
"Metade" de Oswaldo Montenegro.
Outra parte do público presente na sessão.
Clara Oliveira lendo o poema "Passadiço"
de Nelson Ferraz.
Fábio Silva dizendo um poema da sua autoria.
A poeta Luana Lua - uma estreante nas "Fugas
Poéticas" em São João da Madeira - lendo um
texto do livro "Prometo Falhar" de Pedro Chagas
Freitas (Marcador, 2014)
O músico Rui Flash cantando a canção "Porto
Sentido" de Rui Veloso.(Também cantou o célebre
fado de Carlos do Carmo, com letra de José Carlos
Ary dos Santos, "Lisboa, menina e moça")
O poeta Luís de Aguiar - um estreante nas "Fugas
Poéticas" em São João da Madeira - lendo um dos
três poemas da sua autoria que leu naquela noite.
Tiago Moita lendo o poema "Lamento da Língua Portuguesa" de
Vasco Graça Moura.
(Foto de Virgílio Gonçalves)
Amílcar Bastos lendo o poema "Recreio" de Mário de
Sá-Carneiro (Também leu um soneto do século XVII)
Raquel Sousa - uma estreante nas "Fugas Poéticas"
em São João da Madeira - lendo o poema "Não tenho
pressa" de um dos mais célebres heterónimos de
Fernando Pessoa: Alberto Caeiro.
Idiema Salgueiro lendo o poema "Quando eu morrer"
de Maria do Rosário Pedreira.
Sãozita Alves lendo o poema "Na terra dos sonhos"
de António Carlos Santos.
Maria de Fátima Passos lendo o poema "Portugal"
de Cely Parente.
Tiago Moita lendo o poema "Pais (I)"
de Sara F. Costa.
(Foto de Sebastião Oliveira)
o Doutor Ângelo Alberto Campelo Sousa dizendo
o poema "Nevoeiro" da epopeia "Mensagem"
de Fernando Pessoa.
Elídio Bessa - um estreante nas "Fugas Poéticas"
em São João da Madeira - dizendo o célebre
poema "Cântico Negro" de José Régio.
Vânia Soares lendo o poema "No teu olhar" de
Florbela Espanca.
Sebastião Oliveira - um estreante nas "Fugas
Poéticas" em São João da Madeira - lendo
um poema de Alice Queiroz.
Fernanda Guimarães - uma estreante nas "Fugas
Poéticas" em São João da Madeira - lendo um
poema de Carlos Lacerda.
Carlos Pinho lendo o poema "A vida" de João de Deus.
A poeta Aurora Gaia - uma estreia nas "Fugas Poéticas"
em São João da Madeira - lendo o poema "Saudade"
de Luana Lua.
Tiago Moita partindo o bolo do (1º) aniversário das "Fugas Poéticas"
(na Confeitaria "Colmeia") em São João da Madeira.
Eduardo Belinha cantando uma célebre canção
popular chilena: "Gracias à la vida".
Tavares Ribeiro lendo um poema da sua autoria,
seguido de um poema de Maria Teresa Horta.
Virgílio Gonçalves lendo o poema "Identidade" de
Fernando Campos Castro.
Jorge Madureira lendo um poema da sua autoria.
O doutor Ângelo Alberto Campelo Sousa dizendo
o poema "O Monstrengo" da célebre epopeia de
Fernando Pessoa "Mensagem".
André de Oliveira lendo o poema "Terra" de
Rabindranath Tagore.
Eduardo Belinha cantando uma das duas canções
da sua autoria, seguido de uma célebre ária de
Eurico Caruso.
O público que assistiu à (brilhante) performance musical de
Eduardo Belinha, no final da sessão.
Virgílio Gonçalves - um dos "fotógrafos de serviço"
naquela noite.
(grande) parte do público presente no final da sessão.
quarta-feira, 27 de maio de 2015
DÉCIMA "FUGA POÉTICA" NA CONFEITARIA "COLMEIA" EM SÃO JOÃO DA MADEIRA: 1º ANIVERSÁRIO DAS "FUGAS POÉTICAS" - PARTE II (02.06.2015)
AVISO À NAVEGAÇÃO!
"FUGAS POÉTICAS COMEMORAM O SEU PRIMEIRO ANIVERSÁRIO NA CONFEITARIA "COLMEIA" EM SÃO JOÃO DA MADEIRA.
Depois do grande sucesso que foi a 12ª "Fuga Poética" no Neptúlia Bar em São João da Madeira, as noites poéticas mensais nos cafés e bares da cidade e do concelho estão de volta na terça-feira da próxima semana, dia 2 de Junho às 21H30, na Confeitaria "Colmeia" em São João da Madeira.
Esta sessão é uma sessão muito especial, trata-se do PRIMEIRO ANIVERSÁRIO das "Fugas Poéticas" neste típico e icónico estabelecimento sanjoanense. Doze meses de muito sacrifício, amor, partilha, convívio e muita, muita poesia, celebrada numa noite memorável.
Ainda assim, os desafios mantêm-se:
- Dizer pelo menos um poema vosso e de um(a) poeta do vosso coração, de cor e salteado nessa sessão.
- Dizer um poema sobre PORTUGAL (Tema escolhido no mês anterior)
NOTA: Os temas mensais são FACULTATIVOS! Quem os aceitar, aceita-os de sua livre e espontânea vontade. Quem não os aceitar, pode ler um poema que bem quiser, do tema que bem entender.
Quem aceita o desafio?
Venham viver a celebração da Poesia e soltar os poemas da vossa vida do silêncio das gavetas e da poeira dos livros e das memórias.
terça-feira, 26 de maio de 2015
POEMA "OS GESTOS DAS MÃES" DE LUÍS DE AGUIAR
"OS GESTOS DAS MÃES"
Os corpos talham-se com a cinza, arborizam o sono
e o sonho, ceifam pássaros e a frescura do destino.
Eis a água anterior à sede, os gestos das mães oliveirenses,
com os ventres a esquivarem-se entre os riachos e o mar.
Abre-se, a espuma e o silêncio, odor e chuva,
horizonte trémulo, gérmen e última nudez.
Sílabas segregadas, não. Verticalmente? Não! Não!
Escreve-se nome de mulher nesta cidade,
árvores por exemplo, a encurvar o tempo e as flores do sol.
Os pulsos negros de um cavalo,
a rasgarem as veias da terra, as mulheres a abrirem a pele
para encontrarem o poema, o caminho para o seus terraços,
o arbusto de argila, o nome na saliva de uma rapariga.
Eis a criança ruiva, a soletrar esta minha luz extinta.
LUÍS DE AGUIAR
"Luz Extinta"
Edição Jornal "Voz de Azeméis"
2004.
POEMA "NO SORRISO LOUCO DAS MÃES" DE HERBERTO HELDER
"NO SORRISO LOUCO DAS MÃES"
No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos seus ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violetas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em voltas das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos são como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudeza de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.
HERBERTO HELDER
(1930-2015)
"Poesia - O Amor em Visita"
1958
segunda-feira, 25 de maio de 2015
SOBRE A 12ª "FUGA POÉTICA" NO NEPTÚLIA BAR EM SÃO JOÃO DA MADEIRA (25.05.2015)
FUGAS POÉTICAS - UM ANO AO SERVIÇO DA POESIA EM SÃO JOÃO DA MADEIRA (I)
Ninguém imaginava esta efeméride. Apesar das constantes apelos, os convites delicados e adocicados e os murmúrios deste acontecimento nas ondas hertzianas de uma rádio ou nas linhas de uma página de um qualquer jornal, poucos pareciam acreditar que uma iniciativa cultural, criada por Tiago Moita e Edmundo Silva, dois escritores sanjoanenses, imbuídos num sonho de criar noites poéticas nos cafés e bares todos os meses em São João da Madeira, pudesse durar um ano numa terra hipoteticamente mais virada para o labor, o empreendedorismo, os negócios e o desporto do que para a Cultura, quanto mais para a Poesia (Salvo a magnífica e honrada excepção da campanha cultural "Poesia à Mesa", que brinda São João da Madeira todos os anos com Poesia).
Mas duraram. Foram doze meses de sacrifícios e alegrias, ilusões e desilusões, encontros e ausências onde as artes e o convívio se cruzaram com a mais nobre arte de todas as artes, razão e motivo principal desta iniciativa cultural sanjoanense. Os rostos podiam não ser os mesmos, nem mesmo os poemas ou mesmo os poetas, lidos e apresentados, serem agora visões esfumadas de um passado ainda presente na memória de alguns. Todavia, o apelo da Poesia foi sempre mais forte que o vício do conforto dos lares e mais inebriantes que a espuma dos dias.
A homenagem à iniciativa não demoveu a celebração poética ao tema (facultativo) deste mês. Mal o coordenador Tiago Moita anunciou, efusivamente, a efeméride com a leitura do célebre poema de Mário Cesariny "You are Welcome to Elsinore", os pedidos de leitura e expressão artística não se fizeram esperar. Durante cerca de duas horas e meia assistiu-se à ressurreição (da voz) de Enrico Caruso, ao som de um violino melodioso e melancólico, ao ponto de soltar uma lágrima de uma viola e transformá-la numa canção vadia como um Poesia, capaz de salgar cada poema de Gomes Leal, João Vila, Sebastião da Gama, António F.Pina, Joel Lira, João de Deus, Herberto Hélder, Maria José Silva, Maria Amália Ortiz da Fonseca, Maria Ana Gonçalves, José Régio, Lucília Girante, Miguel Torga, Luís de Aguiar, Carlos Drummond de Andrade, António Carlos Santos, Edmundo Silva, Fernando Pessoa, Ana Albergaria, António Aleixo, Almeida Garrett ou mesmo de poetas locais ou desconhecidos, constatei que o espírito inicial das "Fugas" poderia já não ter o mesmo ânimo e expectativa que teve no início mas não perdeu, a meu ver, a vivacidade e a vontade de não deixar morrer na praia o hábito de partilhar, dizer e escutar a arte das artes que é a Poesia.
Próxima paragem: Confeitaria "Colmeia", 2 de Junho de 2015, primeira terça-feira do mês, 21H30.
Conto convosco!
Aqui ficam algumas fotos do evento.
Tiago Moita, coordenador e um dos fundadores
das "Fugas Poéticas" em São João da Madeira,
juntamente com Edmundo Silva, lendo o poema
"You Are Welcome To Elsinore" de Mário Cesariny.
(Foto de Rosa Familiar)
Maioria do público presente na noite do 1º Aniversário das "Fugas
Poéticas" no Neptúlia Bar em São João da Madeira.
Outra parte do público presente na noite de 1º Aniversário das
"Fugas Poéticas" no Neptúlia Bar em São João da Madeira.
Isabel Barbosa lendo o poema "A Senhora de Barbante" de
Gomes Leal.
Carlos Pinho dizendo o poema "Alguém" de
Gonçalo Crespo.
O poeta oliveirense António F.Pina - um estreante nas "Fugas Poéticas"
em São João da Madeira - lendo um poema da sua autoria: "A Noite".
Sãozita Alves lendo o poema "Grita" de Joel Lira.
O doutor Magalhães dos Santos lendo o poema
"Aniversário" de João Vila.
Eduardo Belinha cantando à guitarra uma canção
da sua autoria: "Lágrima".
M Conceição Gomes lendo um poema da sua autoria
sobre a sua mãe.
Andreia - uma estreante nas "Fugas Poéticas" em
São João da Madeira - lendo o poema "Minha Mãe"
de Florbela Espanca.
Tiago Moita lendo o poema "No
Sorriso Louco das Mães" de
Herberto Hélder.
(Foto de Rosa Familiar)
Rosa Familiar (Flor Yaleo) lendo um poema de
Maria José Silva.
O doutor Ângelo Alberto Campelo Sousa lendo
o poema "Poema Incompleto" de Maria Amália
Ortiz da Fonseca.
António Pinheiro lendo o poema "Mãe" de Maria
Ana Gonçalves.
Tavares Ribeiro lendo um poema da sua autoria.
O doutor Magalhães dos Santos lendo o poema
"Cântico Tinto" de J.M de Matos Vila.
Luana - uma jovem violinista, estreante nas "Fugas
Poéticas" em São João da Madeira - tocando
uma célebre ária de Enrico Caruso.
Eduardo Belinha cantando uma célebre ária de
Enrico Caruso, acompanhando ao violino pela
jovem violinista, Luana.
Lena França lendo um poema de António Carlos
Santos.
Ana Paiva dizendo o poema "Recomeça" de
Miguel Torga.
O doutor Magalhães dos Santos cantando uma
canção humorística da sua autoria
(Prelim, prelim, péu, péu...).
Bruna - uma estreante nas "Fugas Poéticas" em
São João da Madeira - lendo o poema
"Aniversário" de Miguel Torga.
Isabel Barbosa lendo o poema "Os Degraus" de António F.Pina,
acompanhada à viola pelo guitarrista Mário Rui.
Mário Rui - um estreante nas "Fugas Poéticas"
em São João da Madeira - acompanhando a
leitura do poema "Os Degraus" de António F. Pina
por Isabel Barbosa à viola.
Mário Rui declamando uma quadra da sua autoria.
Mário Rui cantando uma canção da sua autoria.
Mário Rui cantando o poema "A Nau Catrineta" de Almeida Garrett
quarta-feira, 13 de maio de 2015
POEMA "AS MÃES?" DE JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA
"AS MÃES?"
Fossem estes dias que
brotasse.
Manchas de azul, um rasto de neve em pleno céu,
colmeias,
mel, uma exaltação de asas.
Mas é assim:
metais que revestem a pele e as armaduras,
bronze, ferro, formas que perduram, malhas, ameaçados
tecidos que nos moldam -
quem borda ainda,
quem se atreve à minúcia das rendas?
As mães?
Elas vinham cedo, eram como um rumor de levadas,
atravessando as terras.
Eram as mesmas mãos trabalhando sedas, afagos e
uma conspiração de cores e agulhas frias,
mães de silêncio bordando a treva e o sono, a longa
noite dos filhos.
Herdei uma beleza amarga,
o temor das sombras, de relâmpagos que embatiam
na infância,
no dorso das colinas,
no coração mais triste.
Um estrondo de muralhas, diques, batalhas que
deflagram
uma ciência aterradora:
não quero outra véspera de espadas, a coroação do
sangue,
patíbulos onde a cabeça se expande,
rolando como a poeira e os astros,
repercutindo como um sino no choro das mães.
Não quero um bordado de horas antigas
uma prece no tear das suas mãos -
eu sei como se fundem as teias,
as lágrimas de quando se morre -
eu sei que chove.
JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA
"Antologia Poética"
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