domingo, 26 de julho de 2015
POEMA "ELEGIA DE UM ADEUS" DE TIAGO MOITA
"ELEGIA DE UM ADEUS"
Não posso adiar esta vida
nem mais um minuto neste canto
onde cresci e morri vezes sem conta
coleccionando e queimando memórias
em incensários e taças tibetanas
quando não pensava em relógios
Nenhuma palavra de conforto
serve de âncora ao meu barco
fechar os olhos ao que sinto
é o mesmo que enganar um espelho
resistir é negar o abismo
que escavei no corpo
cego e surdo
ao outono dos calendários
Cada compasso de espera
é um inverno de esperanças
numa madrugada sem sonhos
mesmo que o silêncio sufoque
na garganta
o medo raspe o pouco que me resta
da alma
e o ódio estale no coração
como sal queimado
não posso adiar esta vida
neste lugar
Gastei a última gota de sangue
na casa que sustentou o meu presente
despeço-me da noite
com uma lágrima no bolso
saudade numa mala de cartão
coração separado por um oceano
e um futuro por trincar
numa escuridão
que desconheço.
TIAGO MOITA
"Post Mortem e Outros Uivos"
WorldArtFriends Editora
2012
POEMA "NESTA BREVE PASSAGEM DO SENTIR" DE EDMUNDO SILVA
"NESTA BREVE PASSAGEM DO SENTIR"
Nesta breve passagem do sentir, encerro os olhos para que
eles morem na abundância da emoção...
Visto-me de montanha para que o musgo das minhas mãos
seja o tapete mágico desta simples respiração.
Venho do vapor das viagens que reconhece a palpitação das
pedras, que fecunda do calor fractal das folhas
e verte o heroísmo dos sonhos numa nuvem capaz de escrever
livros com um só sopro de harmonia.
EDMUNDO SILVA
"Epifania ao Sol"
WorldArtFriends Editora
2012
POEMA "O MEU OLHAR É NÍTIDO COMO UM GIRASSOL..." DE ALBERTO CAEIRO/FERNANDO PESSOA
Alberto Caeiro
(Pintura de Silva Porto)
"O MEU OLHAR É NÍTIDO COMO UM GIRASSOL"
(...)
II
O meu olhar é nítido como um girassol
tenho o costume de andar pelas estradas
olhando para a direita e para a esquerda,
e de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
é aquilo que nunca antes eu tinha visto,
e eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo universal
que tem uma criança se, ao nascer,
reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
para a eterna novidade do mundo...
Creio no mundo como um malmequer,
porque o vejo. Mas não penso nele.
Porque pensar é não compreender...
O mundo não se fez para pensarmos nele
(pensar é estar doente dos olhos)
mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia: Tenho sentido...
Se falo na natureza não é porque saiba o que ela é.
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
nem sabe porque ama, nem sabe o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a eterna inocência é não pensar...
(...)
ALBERTO CAEIRO/FERNANDO PESSOA
(1888-1935)
"O meu olhar é nítido como um girassol"
in "Fernando pessoa dito por Sinde Filipe"
2008
POEMA "É DE TI QUE TRANSBORDO" DE SUZAMNA HEZEQUIEL
"É DE TI QUE TRANSBORDO"
Transbordam-me os corpos
ao nutrir-me das tuas metáforas substantivas
entre e às refeições
levas-me, si,
além da palavra
e reivindicas este canibalizar-te
as didascálias, os traços, os acordes
como se o texto pertencesse tanto a ti como a mim
como se o texto abdicasse de nos disfarçar os pensamentos
e nos restituísse à mais hialina emoção
: fonamar morfemas
inventar palarvas para reabsorver o mundo
interpelando o mundo
traguemos-nos, pois, triangularmente
- eu,tu e o mundo
bem sei, é grotesco
: a vida, assim, comer a vida
; ainda que, nas antropofagias, nada se desperdice
(sobretudo nas culturais),
: porque um guna e um tertuliano podem ser compatíveis
e ofertarem.se (inteiros) em banquetes de seivas
concertos e literatura tunning
e sabes? não raras vezes, pergunto-me como seria
a pura e paradoxal marca
que ambos fariam
no último ato
para se consagrarem um ao outro
: livres e monogálmas gémeas
sim
: há quem me chame poesia
; mas é para ti que escrevo
é de ti que transbordo
SUZAMNA HEZEQUIEL
"Pudorgrafia"
Texto Sentido
2015
sábado, 25 de julho de 2015
POEMA "POEMA AO DESEJO" DE MARIA TERESA HORTA
"POEMA AO DESEJO"
Empurra
a tua espada
No
meu ventre
Enterra-a
devagar até ao cimo.
Que
eu sinto de ti
A
queimadura
E
a tua mordedura nos meus rins
Deixa
que a tua boca
Desça
E
me contorne as pernas de doçura
Ò
meu amor a tua língua
Prende
Aquilo que desprende da
loucura.
MARIA TERESA HORTA
"As Palavras do Corpo"
Dom Quixote
2012
quarta-feira, 22 de julho de 2015
"POESIA EM FUGA" - UM POEMA EM FORMA DE DESPEDIDA
A poucas horas de partir para coordenar, pela última vez, as "Fugas Poéticas", ontem, dia 21 de Julho de 2015, no café "O Poeta" em São João da Madeira, escrevi este poema em homenagem a todos aqueles(as) que embarcaram nesta aventura de fazer sessões poéticas quinzenais nos cafés e bares da minha terra, São João da Madeira. Como não consigo dizer "obrigado" tudo aquilo que eu senti ontem, deixei tudo num poema, este poema que vos deixo.
Até sempre, "Fugas Poéticas"
"POESIA EM FUGA"
Cheguei onde sempre nasci
da primeira centelha
de sabedoria primordial
que brotou da explosão do verbo
que germinou do Universo.
Viajei entre dois mundos
dois abrigos telúricos
semeados por dois poetas
forjados pelo fogo moído
da vida e da morte
sob a forma de um sonho.
Naveguei nesse sonho
como quem não deseja saber
o que lhe espera além
da fina lâmina do horizonte
nas línguas nocturnas dos amantes
que me conhecem através do som
da minha harpa.
Desci do coração da alma
para a bruma da terra
palavra ante palavra
lágrima ante lágrima
gesto ante gesto
como quem dança sem roupa
desafiando a gravidade dos dias.
Quando voltei, não quis partir
partir é chegar sempre
à estrada que somos
Regresso onde sempre
me encontraram
numa página em branco
numa tela virgem de cor e pincel
na lágrima de um beijo
num sorriso do céu
ou na memória de alguém
que continua a cantar
os poemas dos poetas
que nunca ignoraram
o meu silêncio.
TIAGO MOITA
21.07.2015
SOBRE A PRIMEIRA "FUGA POÉTICA" NO CAFÉ "O POETA" EM SÃO JOÃO DA MADEIRA (21.07.2015)
AMOR E EROTISMO EM TEMPO DE MUDANÇA (II)
Nenhuma das minhas expectativas conseguiu prever o desfecho daquela histórica noite de terça-feira, dia 21 de Julho de 2015, pelas 21H30, no café "O Poeta" em São João da Madeira. Tinha chegado cinco minutos mais cedo que o habitual e mais de quarenta pessoas aguardava a primeira "Fuga Poética" num dos mais belos e acolhedores cafés da cidade e do concelho, para não dizer das terras de Santa Maria.
A ansiedade e a expectativa pareciam não dar tréguas a todo o meu ser naquele tempo. A hora já passava e, mesmo assim, ainda faltavam pessoas. Os minutos avançavam a passo largo e, pouco a pouco, iam aparecendo os restantes tertulianos que compuseram as cerca de cinquenta almas que ocorram para aquela noite histórica. Desde os habituais membros desta "grande família" que se transformou as "Fugas" passando por caras novas, surpresas de longa data e de grandes distâncias, entre muitos curiosos, misturados com alguns clientes habituais, indiferentes ou espantados com tamanha afluência ao seu espaço de convívio de eleição.
Antecipando-se à sua nova função, o doutor Ângelo Campelo fez questão de abrir a sessão enquanto eu acompanhava mais um grupo de amigos meus para o evento. Chegado ao meu posto, dei as boas-vindas a todos os presentes, fiz um pequeno balanço de todo o meu trabalho nas "Fugas Poéticas", justifiquei a minha saída (forçada) por motivos profissionais da sua organização e coordenação e apresentei a nova equipa de coordenação da mesma e o meu sucessor à frente desta grande iniciativa cultural com mais de um ano de existência, fazendo os mais rasgados e (mais do que) merecidos elogios à sua pessoa.
Findas as boas-vindas, balanços, justificações e elogios, o fundador das "Fugas" - a par de Edmundo Silva - e coordenador Tiago Moita abriu as hostes lendo um poema alusivo ao tema (facultativo) do mês, inteiramente dedicado ao Amor e ao Erotismo: "O meu olhar é nítido como um girassol" do célebre heterónimo - e mestre - de Fernando Pessoa, Alberto Caeiro. E as intervenções não se fizeram esperar.
Quais almas ávidas de Poesia e júbilo, um a um, as pessoas que participaram nesta iniciativa começaram a dar vida aos poemas de Suzamna Guimarães, David Mourão-Ferreira, José Régio, Florbela Espanca, Paul Leminsky, Castro Reis, Virgílio Liquito, Duarte Manuel Klut, Rabindranath Tagore, Herberto Hélder, Vinicious de Moraes, Eugénio de Castro, Sophia de Mello Breyner Andressen, Marçal Aquino, Mia Couto, Adolfo Dias, Manuela Bulcão, Jorge de Sousa Braga, Luís Vaz de Camões, José Carlos Ary dos Santos, Carlos Lacerda, António Botto, Eugénio de Andrade, Alice Queiroz, Edmundo Silva e Tiago Moita, numa noite onde se escutaram poemas de poetas de todas as idades, locais e desconhecidos, em que não faltou alegria, improviso, animação e uma surpresa em forma de poema feita por mim ao meu sucessor e à nova equipa de coordenação de uma das maiores e mais memoráveis iniciativas cultural que organizei, coordenei e participei em nove anos (quase) ininterruptos de voluntariado cultural que exerci em São João da Madeira que agora chegaram ao fim mas que guardarei para sempre na minha memória e no meu coração.
Até Breve!
Aqui ficam as fotos da minha última sessão:
Até Breve!
Aqui ficam as fotos da minha última sessão:
Parte do público presente antes de começar a sessão.
O público em amena cavaqueira, antes de começar a sessão.
Tiago Moita - um dos fundadores das "Fugas
Poéticas, a par de Edmundo Silva e coordenador
da iniciativa - abrindo a sessão com a leitura poética
do poema "O meu olhar é nítido como um girassol"
do célebre heterónimo - e mestre - de Fernando
Pessoa, Alberto Caeiro.
(Foto de Dinis Silva)
Os livros e papéis na mesa de Tiago Moita.
(Foto de Dinis Silva)
Agostinho Silva - um estreante nas "Fugas Poéticas"-
dizendo um poema alusivo ao nome do estabelecimento:
"O Poeta".
A poeta e escritora Suzamna Hezequiel - uma
estreante nas "Fugas Poéticas" - lendo o poema
"É de ti que transbordo" do seu segundo livro de
Poesia "Pudorgrafia" (Texto Sentido, 2015).
Carmo Silva - uma estreante nas "Fugas Poéticas"-
lendo o poema "O Coração" de Carlos Castilho
Paz.
Carlos Pinho lendo um poema/canção "Amor e Sexo"
da cantora brasileira Rita Lee.
Susana Moura lendo um poema da sua autoria.
Paula Fernandes lendo um poema da sua autoria:
"Romance".
Victor José lendo um poema da sua autoria:
"Solidão Pitonísia".
Miguel - um estreante nas "Fugas Poéticas" -
lendo um dos seus poemas.
O poeta e diseur Carlos Lacerda declamando
o célebre poema de José Régio "Cântico Negro"
Isabel Barbosa lendo o poema "Inconstância" de
Florbela Espanca.
O doutor Luís Quintino lendo um poema do poeta
brasileiro Paul Leminsky.
O senhor Altino lendo um poema de Castro Reis.
Virgílio Liquito - um estreante nas "Fugas Poéticas" -
lendo um poema da sua autoria.
Duarte Manuel Klut lendo um poema da sua autoria:
"Vendo para além".
Pedro Neves - um estreante nas "Fugas Poéticas" -
dizendo um poema de Vinicius de Moraes e uns
provérbios portugueses bastante "apimentados".
Rogério Barbosa dizendo dois pensamentos acerca
dos dois temas (facultativos) do mês - o Amor e o
Erotismo - seguido de um poema de Eugénio de
Castro.
Luana Lua lendo o poema "Assim o Amor" de
Sophia de Mello Breyner Andressen.
A poeta Alice Queiroz lendo o "Poema da Curta"
de Marçal Aquino.
A poeta Manuela Bulcão - uma estreante nas "Fugas
Poéticas" - lendo o poema "Para ti" de Mia Couto.
M Conceição Gomes lendo o poema "Erótico
Xadrez, Xeque ao Rei" de Adolfo Dias.
Tiago Moita e Inês Severino lendo o poema "O
teu mamilo no meu mamilo" de Jorge de Sousa
Braga.
(Foto de Dinis Silva)
Maria de Fátima Passos lendo o poema "Recordação"
de Manuela Bulcão.
Virgílio Gonçalves lendo o poema "Onde andará
o meu doutor?" de Tatiana Bruscky.
Parte do público presente durante a sessão.
Outra parte do público presente durante a sessão.
Tiago - um estreante nas "Fugas Poéticas" - lendo
o célebre poema "Amor é um fogo que arde sem se ver"
de Luís Vaz de Camões.
Inês Severino lendo o poema "Na Mesa do Santo
Ofício" de José Carlos Ary dos Santos.
O doutor Luís Quintino lendo o célebre poema
"Poeta Castrado, não!" de José Carlos Ary dos
Santos.
Fernanda Guimarães lendo um poema de
Carlos Lacerda.
O doutor Ângelo Alberto Campelo Sousa dissertando sobre o poema
que ia ler do mais recente poemário de Tiago Moita "Post Mortem e
Outros Uivos" (WorldArtFriends/Corpos Editora, Novembro de 2012)
(Foto de Dinis Silva)
O doutor Ângelo Alberto Campelo Sousa lendo o
poema "Elegia de um Adeus" de Tiago Moita.
Tiago Moita com o doutor Ângelo Alberto Campelo Sousa e a
equipa de coordenação que o substituiu após a sessão
(Da esquerda para a direita: Tiago Moita, Luís Quintino, Lena
França, M Conceição Gomes, Ângelo Alberto Campelo Sousa
e Isabel Barbosa.
(Foto de Dinis Silva)
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