quinta-feira, 1 de novembro de 2012

A Crítica Literária de LUÍSA MONTEIRO ao livro "O Último Império" de Tiago Moita (17.10.2012)


O tempo parecia não dar tréguas a Portugal naquela quarta-feira, dia 17 de Outubro de 2012, quando apresentei o meu primeiro romance "O Último Império" (Chiado Editora, 2012) na Fnac do Fórum Coimbra com a Professora Universitária de Literatura Comparada, LUÍSA MONTEIRO. De todas as críticas literárias que tive durante a digressão, esta, foi a melhor, pela sua clareza e capacidade de interpretação do sentido da minha obra. Para quem não pode assistir à sessão , deixo-vos com um resumo do seu discurso. Parabéns Luísa e muito obrigado por tudo!

"Dedicado à família e a Portugal, o romance de Tiago Moita é uma obra apropriada ao cinema, constituindo cada capítulo uma cena de filmagem. De tom rigoroso e objectivo, tem frases que parecem indicações para câmara, acerca da luz, do tempo e do lugar. De resto, estas sequências de imagens, alternam-se entre o passado e o presente, entre Portugal e outros países da Europa, numa técnica próxima do cut-up, e culminando cada qual em suspensão e com os ingredientes necessários ao enigma e á surpresa, o que leva o leitor a não conseguir parar de ler "O Último Império".

"(...) este romance, sob o aspecto formal, é de uma segurança e mestria irrepreensíveis, aniquilando qualquer defesa do leitor/espectador face à obra. É um livro veloz e surpreendente, tamanha profusão de realidades, de personagens e de leituras mais ou menos místicas daquilo que é o mistério da vida humana."

"Do ponto de vista literário, não podemos porém, classificar como um romance histórico nem como um exemplar do fantástico, na vertente da ficção científica. Também não subscrevo afirmações que apontam esta obra como "um romance estranho", ou um "thriller" a terminar "em suspense". Isto, porque Tiago Moita revela-se como um destruidor de mitos."

"Vamos por partes. Esta obra cabe nos romances policiais contemporâneos, os quais romperam já com o padrão dos romances que mereciam este título, como é o caso de Egar Allan Poe, Agatha Christie, Sir Arthur Conan Doyle, George Simenon e Raymond Chandler. (...)Mas "O último Império" não é um whodunit, antes insere-se numa categoria temática do policial contemporâneo que privilegia o misticismo e a religiosidade, tal como autores de sucesso o fazem e que tantos leitores têm angariado, como é o caso de Dan Brown."

"Além de quebrar várias regras da velha narrativa policial, Tiago Moita não apresenta o crime como o leit motiv do enredo e a pesquisa do detective Diogo Pombal não se centra apenas na descoberta da identidade dos criminosos, na medida em que esse não é o único segredo da narrativa.(...)"

""O Último Império" é um livro extraordinário, onde entram produções literárias de Camões, Padre António Vieira, Bandarra, Fernando Pessoa, Aleister Crowley, as sociedades secretas, as de hoje, Polícia Judiciária, ESS, anjos e, entre muitos outros, o Encoberto, (...)"

"O efeito surpresa, resultante de uma cultura geral notável e de uma imaginação fulgurante do autor é, indubitavelmente, um dos grandes trunfos deste livro.(..)"

"Acentuando a contemporaneidade deste romance policial, vemos que os crimes são realizados em função de motivos colectivos e não por motivos individuais, como acontecia nos romances policiais tradicionais. Na abordagem semiótica greimasiana, o que motiva esta paixão é o fanatismo, envolvendo um princípio religioso por parte dos criminosos, ao contrário da cobiça e da ira que motivavam os policiais tradicionais, ou seja, há sempre um enigma religioso ou místico no foco das narrativas. Outra caraterística marcante, é a diluição da investigação, ou seja, essa demanda deixa de privilegiar a busca da identidade dos assassinos, para encontrar as causas e consequências do crime que estejam relacionadas com um segredo religiosos ou místico.(...)"

"Quando refiro que este romance policial se insere na categoria do misticismo e do religioso, sustento-me na definição do misticismo como crença na existência de uma realidade sobrenatural e misteriosa, acessível apenas a uma experiência privilegiada, uma instituição ou sentimento de união com o divino, o sobrenatural, o misterioso. Quando relacionamos este conceito aos romances policiais podemos visualizar o estado místico no êxtase encontrado pelos criminosos quando perpetram a morte, na medida em que compartilham segredos até então ocultos da sociedade e por isso são suas vítimas todos aqueles que ousam descobrir a verdade. Porém, é também a Filosofia que nos diz que o misticismo é um anti-racionalismo. Efectivamente, Pombal não tem uma atitude mística , antes intelectual e racional, que é o que o faz chegar a conclusões."

"Reiterando o enquadramento de O Último Império, neste romance o crime não é apenas o assassinato de sujeitos, mas é o facto de uma instituição religiosa se manter com base num mito. (...)Ora, Tiago Moita destrói esse  mito, ao conferir-lhe prova. (...) Nisto, Tiago Moita aproxima-se de Fernando Pessoa, pois uma das suas grandes preocupações foi precisamente compreender Portugal, tomando o mito de D.Sebastião e do Quinto Império como sinónimos da Verdadeira Alma Portuguesa, mitos esses de cariz messiânico a serem construídos e efectivados pela palavra. Tiago Moita, utiliza o vocábulo "voz", que é a palavra tornada audível."

"Ernest Cassirer, filósofo contemporâneo, observa em O Mito e a Linguagem, que é "a palavra, a linguagem, [o que] realmente desvenda ao homem aquele mundo que está mais próximo dele, que o próprio ser físico dos objectos e que afecta mais directamente a sua felicidade ou a sua desgraça. [...] a palavra tem de ser concebida, no sentido mítico, como ser substancial e como força substancial, antes que se possa considerá-la no sentido ideacional, como órgão do espírito, como função fundamental da construção e articulação da realidade espiritual (pp.77-78, ed.Perspectiva, SP, 1992)"(...)"Contudo, o cariz messiânico é destruído por Tiago Moita, ao fazer desse mito um acontecimento real. Ora, messiânico é sempre o que hão-de vir - não pode vir, não pode acontecer, caso contrário, a sua substância de espera eterna dilui-se. (...) Nisto Tiago Moita foi mestre: consegue levar o leitor a gostar de acreditar em crenças e mitos fundadores e urbanos, e a exultar por assistir ao acontecimento das profecias que os mitos agregam; quando, precisamente, está a colocar-lhes um ponto final. Daí, muito justificadamente o título, O Último Império."

"Uma vez transportandos para o para o Quinto Império, as personagens deste romance operam uma das facetas do Paracleto, ou Espírito Santo, que é o seu poder transmutador, a metamorfose (...) Esta situação leva-me também a associar Tiago Moita a um dos maiores escritores de sempre: Jorge Luís Borges, especialmente no seu conto "A seita da Fénix, inserto em Ficções. Nele, o escritor argentino estabelece a diferença entre a Gente do Costume e a Gente do Segredo. Fénix, essa figura mitológica que renasce da própria decomposição, segundo Borges, é "raríssima na linguagem oral" e os constituintes da sua seita ou são ciganos, isto é, "vendedores de gado, caldeireiros, ferreiros e leitores da sina" ou sectários, ou seja, os que "costumam exercer afortunadamente as profissões liberais"; Que os sectários num mundo judaico se pareçam com os judeus, não prova nada. O inegável é que se parecem (...)com todos os homens do mundo", diz-nos. Esta seita da Fénix não tem livro sagrado, tem apenas o Segredo e uma lenda da qual o autor não conseguiu nenhum vestígio. O que possuem, é o rito. Por último, o autor - que fez amizade com elementos deste estranho grupo religioso da Fénix - conclui: "O esquisito é que o Segredo não se tenha perdido há muito tempo; apesar das vicissitudes do globo, a despeito das guerras e dos êxodos, chega, tremendamente, a todos os fiéis. Alguém não hesitou em afirmar que já é instintivo." Notemos que o preâmbulo de O Último Império versa precisamente sobre as vicissitudes do globo."

Um comentário:

Edmundo Silva disse...

Só me ocorre Bravo!!

Bem gostava que a vida fosse um capítulo interminável de evoluções puras, sem a intermitência das dúvidas, em que o amor fosse não o império de todas as formas, (porque imperativo não deve ser ele, nem encarado como tal, pois deixaria de ser tal como é, incorruptível), mas o simples sentir perpétuo das nossas sublimações...