quinta-feira, 26 de abril de 2007

LUIS DE AGUIAR APRESENTOU O SEU 4.º LIVRO DE POESIA "ROSTOS DESCALÇOS" EM SÃO JOÃO DA MADEIRA (21.04.2007)


Da esquerda para a direita: professor DJalma Marques. Luís de Aguiar e o presidente da Palimage Editora

OS "ROSTOS DESCALÇOS" DE LUÍS DE AGUIAR 

Foi num ambiente quase familiar que ocorreu no passado Sábado, dia 26 de Abril de 2007, pelas 21H30, a sessão de apresentação do quarto livro de Poesia do poeta oliveirense Luís de Aguiar "Rostos Descalços" (Palimage, 2006), na Livraria "Entrelinhas" em São João da Madeira. 

O presidente da Palimage foi o primeiro a falar. Mencionou todo o percurso da sua editora e o grande orgulho que tem em ter, no catálogo de autores da sua editora, um poeta tão talentoso, inovador e laureado como Luís de Aguiar. O professor Djalma Marques, que apresentou a obra, realçou este livro como algo que "tenta despertar-nos do sono."

Segundo o poeta que "ama todas as perdas" e "todas as aparições", este livro é o seu quarto livro, mas sente-o como se fosse o primeiro, por ser uma obra em que se estreia a escrever não sobre si próprio, mas "sobre todos e cada um.". "É um sair e um entrar, é uma nova fronteira, um marco novo na minha escrita", salientou.

A obra em questão foi distinguida com o 1º prémio de Poesia Montijo Jovem 2005. Segundo Luís de Aguiar, estes poemas foram escritos em apenas três dias, durante uma viagem a Itália em que foi receber um prémio obtido no Concorso Internazionale di Poesia Castello di Duino e que "retrata vivências marginais, gestos obscenos, quase pornográficos.". O autor de "Filhos Raianos" (seu terceiro livro de Poesia, também editado pela Palimage em 2006. Vencedor do 1.º Prémio do Concurso Jovens Criadores de Idanha, comemorações dos 800 anos, nesse mesmo ano) disse, a respeito do seu novo poemário, que "enquanto seres humanos, todos vestimos rostos, vestimos a máscara e somos o outro", por isso, "o rosto descalço é uma utopia". Ainda acerca do seu novo livro, o poeta descreve esse poemas como "velhos" porque foram escritos em Março de 2005, mas, ao mesmo tempo, são "novos", porque iniciam uma nova fase na escrita de Luís de Aguiar.

No fim da sessão, todos os presentes foram ter com o autor para receber um autógrafo da sua parte e uma fatia do (delicioso) bolo de chocolate da sua amiga Rosário Batista, que o cofeccionou, de propósito, para esta sessão.

Tiago Moita
26.04.2007

Deixo-vos com um dos poemas deste livro:

"As pessoas arrastam-se pelas ruas.
definham os seus rostos contra as montras,
petrificam-se sem a volúvel pele que as cobre,
procuram, incessantemente, nos vidros do céu,
um espelho, um deus. procuram a imagem
das suas vozes. são humanos, inalteráveis,
e arrastam-se em sorrisos longos, em sorrisos
moribundos, nos seus corpos gastos.
e nenhuma sílaba é arrancada das suas bocas,
nenhum eco, nenhuma vida.
as pessoas fingem serem pessoas e misturam-se
ao movimento dos carros, misturam-se à sede
dos cães vadios, misturam-se ao rastro de sangue
que as velhas casas deixam nas pálpebras de pele.
os corpos erguem os braços, quase que rasgam
os pulsos ou os ombros, recostam-se à luz dos dias
e voltam a arrastarem-se pelas ruas, cientes que
a solidão, um dia, há-de entrar numa gota de lume."

Luís de Aguiar
"Rostos Descalços"
Palimage
2006

sexta-feira, 20 de abril de 2007

TIAGO MOITA NO FILO CAFÉ "RITOS E RITUAIS"



No Filo Café de 24 de Março, esteve também presente o escritor e poeta Sanjoanense Tiago Moita, que aproveitou a sessão cultural no Clube Literário do Porto para intervir, apresentando algumas opiniões sobre um dos temas em discussão e declamando dois poemas sobre o tema do Filo-Café: um de Luiza Neto Jorge e outro da sua Autoria.

RITUAL

A jarra tombou

A água correu sobre a mesa

As flores calaram-se aos poucos

o espantalho tocou o acordeão

A criança cansou-se do vento

desatou as sandálias

O mar meditou duas vezes

qual o horizonte

Do sótão a galinha presa

viu um avião voar

Uns quantos vestiram-se de negro

viveram da morte dos outros

Suicidou-se uma sombra

debaixo do meu pé

A mulher vestiu-se de branco

para a Ressurreição

O país desbotou

no mapa das escolas

Amor que esperas de mim

a não ser eu.

LUIZA NETO JORGE, " Quarta Dimensão"

DÓLMEN

Longe é a distância

que o tempo guarda na sua memória

um silêncio que se despe

por detrás das sombras das palavras

um eco mudo estrebuchando

do umbigo de um espelho

uma lembrança por apagar

do suicídio de uma lágrima

Um sino toca no interior de uma gruta

um gesto devolve à terra a sua língua

uma luz dispara da garganta de um poço

para uma multidão com olhos de cera,

telhados de vidro debaixo de máscaras de plástico

de costas voltadas para um tempo

gasto pela usura dos seus ponteiros

Foi desligada a tomado do pensamento...

Cérebro em piloto automático...

A cerimónia começa com uma explosão de cores e de sons

um caleidoscópio cego, carregado de hipérboles e adjectivos,

dispara ordens em discurso directo

para o coração dos seus discípulos

O amor aparece sublinhado em legendas

por uma ejaculação precoce de sentidos

o sonho é um vampiro com asas de anjo

que suga da mente o sangue frio dos dias

Felicidade é uma promessa entregue a uma roleta russa

Verdade, uma palavra esquecida nas páginas de um dicionário

Últimas orações:

Uma moeda com uma palavra de fogo cai na ponta de cada língua

e um fio de água benta escorre da palma de uma mão invisível sobre testas de barro

o espírito desperta do sonho que fez de si próprio

o mundo despede-se dos olhos que o despiram

Fim da Emissão

TIAGO MOITA, 24-03-2007

SOBRE O FILO CAFÉ "RITOS E RITUAIS"

Numa atmosfera de grande expectativa e entusiasmo, decorreu no dia 24 de Março, Sábado, por volta das 21H30, o Filo-Café "Ritos e Rituais" no Clube Literário do Porto. Um Filo.Café marcado por uma intensa discussão filosófica aonde os modos de expressão demarcaram-se do formalismo sintético existente em certas tertúlias convencionais e aonde o pensamento se confundiu com a arte. A arte com a manifestação. O devir com a antítese.

Para além do debate, contou-se também com a performance plástica da jovem escritora Sílvia Zayas: Jovem Luso-Galega que lançou nessa noite a sua mais recente obra poética "Amalaya!", na presença de artistas, escritores e outros convidados vindos de Portugal e da Galiza.
Aqui ficam algumas fotos desse evento:

Sílvia Zayas (Sentada no chão) no Filo-Café do Porto

Silvia Zayas dando início à sua performance



Alberto Miranda dando início ao Filo-Café "RITOS E RITUAIS"


Aspecto do local aonde se desenrolou o Filo-Café

O filósofo e poeta Alexandre Teixeira Mendes batendo
palmas durante uma intervenção no Filo-Café "RITOS E
RITUAIS"



Uma parte do público que assistiu ao Filo-Café "RITOS E
RITUAIS"

Sílvia Zayas em plena performance

Sílvia Zayas em plena performance (II)

Sílvia Zayas em plena performance (III)

Sílvia Zayas em plena performance (IV)

Tiago Moita (Esquerda, ao fundo) aplaudindo uma das
intervenções e Amílcar Mendes (Canto Direito)

O Poeta e advogado Aurelino Costa


Carlos Gil no Filo-Café "RITOS E RITUAIS"

A poeta luz Gomes, de monção, no Filo-Café "RITOS E
RITUAIS"

O escritor e poeta Rogério Carrola, de Vila
Nova de Sto. André no Filo-Café "RITOS E
RITUAIS"

Alguns dos convidados e amigos de Sílvia Zayas, vindos da
Galiza

Jorge Taxa intervindo no Filo-Café "RITOS E RITUAIS"

A fotógrafa Cubana Deborah Nofret (en) cantando no filo
Café "RITOS E RITUAIS"
A artista Alice Valente, de Lisboa, no Filo-Café "RITOS E
RITUAIS"



Uma foto da Escritora
e Poeta Sandra Costa
Para finalizar, deixo-vos com um excerto do livro Bilingue de poesia de Sílvia Zayas "Amalaya!"
INSTRUÇÕES PARA COMER TERRA
1. Chegar o ouvido à língua da terra:
A sua história infeliz repete lagartos falantes. Aprendo a sua
linguagem.
2. Reptar, deixar que entre:
A minha boca mastiga terra. Recinto fechado sem mundo.
Meço as minhas entranhas como quem mede um pássaro.
Sento-me na pedra contorcionista com as pernas viradas
para o cume da montanha. Doí.
3. Avançar uns metros:
Deixo espaço, imito o som da gravilha quando o vento brinca
com ela. Fumeio a poeira para cima, faço-me minúscula e plana.
Fiadas de arame rente a mim esburacam-me as costas
com as suas faces metálicas.
4. Olhar para cima com a boca cheia de terra:
Tudo se alarma longe, grande. Reza inalcançável o feixe de
luz e não me remenda sacramento nenhum.
5. Medir o movimento:
Tenho medo ao barulho do meu corpo.
6. Deixar-se estar em silêncio:
Habito uma madrigueira com pelugens de mamíferos que
nunca lá esteve. Cobre-me a mão da noite, com o mal que lhe
haja dado algum animal pré-histórico, quero deter o tempo
como a mentira do chapeleiro que obstruiu o seus relógios à
hora combinada, para me acocorar numa estrela.
7. Fazer um ritual inútil com cardos e folhada (que não
mudará o mundo):
Golpeio madeira como louca, a louca da terra, a louca da raiz, a
louca loucura.
8. Conhecer/ amanhecer:
Procuro um pássaro para me alimentar do seu voo, com
desejo exacto de ave e de cegar o ar em tantos pedaços como
pari a alma. Súbito e pele, caminha-me por cima o vesgo e olha
para mim atravessando. Ata-me ao verso. Enfeitiço-me ao
malefício do verso, ao seu estigma, à sua dificuldade em ser
quotidiana.
9. Gritar AMALAYA:
levanto-me atordoada. Malhayada, decido o movimento. O
vesgo é o poeta e dá-me o encantamento do olhar. Já não há
prodígio nenhum que me devolva a cegueira.
10. Já de pé, avançar aos saltos pela circunferência
do mundo.

LANÇAMENTO DO LIVRO "ROSTOS DESCALÇOS" DE LUÍS DE AGUIAR

Este sábado, dia 21 de Abril, a partir das 21H30,vai ter lugar na Livraria Entrelinhas, em S. João da Madeira, a sessão de lançamento do Livro de poesia "ROSTOS DESCALÇOS" do poeta Oliveirense Luís de Aguiar.

Este livro foi distinguido pelo primeiro prémio de poesia Montijo Jovem 2005.

quinta-feira, 12 de abril de 2007

DA APRESENTAÇÃO DO LIVRO "A CIDADE LÍQUIDA E OUTRAS TEXTURAS" DE FILIPA LEAL EM SÃO JOÃO DA MADEIRA (11.04.2007)


"A POETA LÍQUIDA"

O que me levou a deslocar à Biblioteca Municipal Dr. Renato Araújo em São João da Madeira, naquela quarta-feira à noite, dia 11 de Abril de 2007, para assistir à sessão de apresentação do livro "A Cidade Líquida e Outras Texturas" de uma tal Filipa Leal - nome que, até àquele dia, desconhecia por completo -, é um autêntico mistério.

É verdade que, desde que descobri a minha condição de Escritor, sempre quis conhecer, de perto, outros poetas e escritores - principalmente novos talentos -, trocar impressões e experiências, testemunhos e até, inclusive, textos, poemas ou até mesmo livros. Todavia, naquele dia, tinha tanta coisa para fazer que descartei a hipótese de assistir à apresentação do livro desta jovem poeta.

Subitamente, como por magia, consegui resolver tudo o que tinha para fazer naquele dia mas, mesmo assim, não sentia a mínima vontade em ir à sessão de apresentação do mais recente livro daquela poeta portuense. Eis quando sou, subitamente acometido por um impulso misterioso e transcendental que literalmente me obrigou a assistir àquele evento, como se fosse o próprio destino a empurrar-me com a sua mão invisível para fora de casa, obrigando-me a escrever um novo capítulo da história da minha vida.

Ainda hoje desconheço o que esteve por detrás desse enigmático instinto. Quando lá cheguei, encontrei um número tão escasso de pessoas quanto os dedos das minhas mãos. A poeta, acompanhada pelo seu editor António Luís Catarino, da Deriva Editora, pela minha amiga e directora da Biblioteca Municipal Dr. Renato Araújo em São João da Madeira, Dr.ª Maria Helena Cruz, fizeram os agradecimentos e respectivas apresentações a todos os presentes. O editor apresentou, como é da praxe, a sua editora, a obra e, é claro, a poeta. O que aconteceu depois foi um momento de rara epifanía.

Não sei bem como explicar mas, quando olhei para aqueles olhos tristes, doces e castanhos e aquele sorriso lunar, em forma de quarto minguante, senti a energia da sua aura a invadir a minha, como se a minha alma e o meu coração dessem, incondicionalmente, permissão para a sua energia penetrar na minha essência, sem que eu sentisse qualquer problema em ser invadido por aquela misteriosa força provinda daquela talentosa jovem, bela (sem sombra de dúvidas) e enigmática mulher que, naquela sessão, parecia sentir-se desconfortável e começou a comportar-se como uma professora universitária muito séria, a dar uma aula aos seus alunos.


A jornalista, poeta e escritora Filipa Leal

Metafísicas à parte - e segundo o que eu apurei nos dias seguintes a este evento -, a Poesia de Filipa Leal é considerada "inumana e luminosa". Em relação ao livro em questão "A Cidade Líquida e Outras Texturas", Filipa encontra o seu "eu entre parêntesis" devido a uma forte necessidade de comunicação que advém, em parte, da sua actividade permanente como jornalista. E sublinha que este livro fala dela e, ao mesmo tempo, do mundo, através de si própria, mais velada do que na sua última obra "Talvez os Lírios Compreendam" (Cadernos do Campo Alegre, 2004). Uma obra carregada de uma carga simbólica de palavras que amam e conhecem a linguagem e os respiros do amor. Numa escrita arejada, Filipa consegue impregnar os seus poemas de palavras que traduzem o quotidiano nos caminhos da liberdade, uma procura permanente da harmonia que o torna mais límpido e transparente.



Segundo a jornalista do jornal "Labor", Salomé Pinto, "A metáfora é exterior, é uma imagem cinematográfica, mas não mais do que um holograma da personalidade de quem a escreve. Filipa Leal parte da descrição de uma "cidade terrível, líquida, que se libertou do continente, que vai afogando as cidades costeiras e nas quais as pessoas morrem de vaidade, porque estão a olhar a cidade líquida, ou seja, estão a olhar para si próprias, a ponto de a cidade tornar-se a própria pessoa" que se despega do continente, mas afasta qualquer semelhança com "A Jangada de Pedra" de José Saramago. Trata-se de uma cidade de água, líquida e transparente, que engole as terras costeiras e as pessoas que dela se aproximam para se contemplarem no enorme lençol espelhado.

O retrato da cidade, que nasce do imaginário poético da escritora, poeta e jornalista portuense, está povoado de seres humanos, os amigos e a família, que lhe abrem a porta da casa para ela habitar, com quem segura um diálogo permanente. O texto, recheado de metáforas e de frases precisas e expressivas, oferece-nos uma visão aquática da cidade. Uma "Cidade Líquida", que entrelaça uma comunhão com os barcos, com quem aprende a mover-se, para chegar ao cais da partida. E, tal como os barcos, essa cidade conhece as marés e com elas aprende a pescar e amar, ao cair da tarde.

De acordo com a poeta, "As pessoas morrem de vaidade", uma alegoria que fez com que Filipa dividi-se a sua obra em três partes: "Cidade Líquida", "Nós, a cidade" e "Cidade Desconhecida".

Segundo, o jornalista do jornal semanário "O Regional", António Gomes Costa, "Filipa Leal, bem ao jeito daquilo a que já nos habituou, brinca com as palavras feitas de sentimentos, de olhos atentos na fotografia com que a sua objectiva procura apanhar a cidade, espelhando o amor, em poemas que só "aquela glória" sabe conhecer, para que a cidade e o rio, olhos nos olhos, saibam ler aquilo que o seu silêncio significa."

Sem dúvida, uma poeta a ter em conta nos próximos tempos.

Tiago Moita. 

domingo, 25 de março de 2007

SOBRE A APRESENTAÇÃO DO 2.º LIVRO DE POESIA "UMA DEVASTAÇÃO INTELIGENTE" DE SARA F.COSTA (22.03.2007)


"UMA DEVASTAÇÃO LÚCIDA"

Foi com um enorme orgulho no peito e felicidade no coração que estive presente na sessão de apresentação do segundo livro de Poesia da minha amiga Sara Costa (perdão: Sara F.Costa) "Uma Devastação Inteligente" (Atelier Edições, 2007), naquela quinta-feira enevoada, dia 22 de Março de 2007, pelas 21H30, na Biblioteca Municipal Dr. Renato Araújo em São João da Madeira.

O auditória da biblioteca da minha terra estava completamente lotado. Entre os presentes, estavam os seus pais, familiares próximos e afastados, antigos colegas, amigos e conhecidos e, claro, o seu velho amigo de sempre Luís de Aguiar, acompanhado pela sua outra amiga, Diana Santos, ex-membros do Grupo Poético Oliveirense. Travei algumas amizades com algumas caras conhecidas - umas mais recentes, outras, de longa data -, que já não via há algum tempo. Entre elas, destaco o meu amigo Rui Guerra (A.E.J, 1986/89) e do Paulo Bastos (Gimnofísico, 1994/95), o Professor Josias Gil, o vice-presidente e vereador da Cultura da Câmara Municipal de São João da Madeira, doutor Rui Costa, o nosso mais recente (grande) escritor e poeta Martz Inura (Pseudónimo de Emídio Ferreira de Aguiar) e, the last but not the least", a estrela da noite, Sara F.Costa, que não só troquei uns breves dois dedos de conversa como também enalteci a sua beleza e elegância nessa noite. 

O livro em questão foi a primeira obra reconhecida pelo Prémio Literário João da Silva Correia, lançado pela Câmara Municipal de São João da Madeira no ano passado e que, através dele, "pretende promover e consolidar hábitos de leitura e escrita criativa", além de incentivar o aparecimento de novos talentos literários.

Rui Costa, em representação do presidente da edilidade, o doutor Castro Almeida, assim que tomou o uso da palavra no acto de apresentação pública do novo poemário da Sara, teceu rasgados elogios à jovem escritora e aproveitou a ocasião para justificar a criação do prémio literário, que tem como patrono a figura de João da Silva Correia um reconhecido vulto da vida cultural da cidade.

A apresentação de "Uma Devastação Inteligente" foi levada a cabo pelo Professor Josias Gil, membro do júri que decidiu atribuição de tão significativo galardão. Depois de mostrar a sua satisfação por este evento citadino. Aquele orador reconheceu que a criação de concursos literários dá oportunidade a muitos escritores vejam nos escaparates as suas obras "porque as editoras não apostam, com facilidade, em autores desconhecidos (sic)". Josias Gil também salientou o "sentido demiúrgico desta obra",explicando "Se Deus criou o mundo pelo verbo, o poeta também o recria pelo verbo". Acrescentou também que "Neste texto, há um acto fundador de uma existência única com a realidade". E continua: "Ao ler aqueles versos, senti que havia ali uma pessoa muito especial, com uma atitude ousada, empreendedora e criativa, face ao mundo e a si própria."

Nesse sentido, o Professor Josias Gil afirmou não estar perante uma "colectânea de versinhos" mas sim, perante um manifesto existencial de alguém que não se conforma com a banalidade, com a rotina e consigo própria.

Para o filósofo e professor sanjoanense, o título da obra premiada transmite "a ideia de um mundo onde há tanta mediocridade, tanta imitação do pior, a tal ponto que uma devastação inteligente ganha um especial relevo." 

Ao terminar a sua intervenção, e numa visão profética mostrou a sua convicção de que "A Sara vai ser uma grande escritora de Poesia no futuro."

No final, a Sara brindou os presentes com a declamação de três dos muitos poemas que povoam a sua obra.

Parabéns (mais uma vez) Sara!

Tiago Moita.

Deixo-vos um poema deste (fabuloso) poemário:


"Há uma árvore no início de cada presságio"


"Há uma árvore no início de cada presságio
e um fogo intermitente a talhar a árvore.
Há diálogos rasgados
entre as pedras e as estrelas.
Há um lugar próximo do esquecimento
que se move na saliva vermelha 
dos espelhos."

SARA F.COSTA
"Uma Devastação Inteligente"
Atelier Edições
2007

domingo, 18 de março de 2007

UM OLHAR SOBRE O PASSADO: A APRESENTAÇÃO DO PRIMEIRO LIVRO DE POESIA DE SARA COSTA (10.12.2004)




A MELANCOLIA, SEGUNDO SARA COSTA

A melancolia não escolhe tempo ou lugar para expressar a majestade da sua magnitude e a beleza da sua ruína. A expectativa era tão grande naquela noite de sexta-feira, dia 10 de Dezembro de 2004, quanto a afluência do público que se deslocou à Biblioteca Municipal Dr. Renato Araújo em São João da Madeira, para assistir à sessão de apresentação do primeiro livro de Poesia da minha amiga poeta Sara Costa "A Melancolia das Mãos e Outros Rasgos" (Pé de Página Editora, 2004). Grande parte das pessoas já se encontravam dentro do edifício. Apenas alguns amigos da Sara ficaram na imediações.

A sessão contou com a presença de muitos familiares, colegas da Escola Secundária Serafim Leite, amigos, conhecidos e alguns curiosos, ansiosos por assistir à apresentação do primeiro livro da jovem poeta. - Por momentos julguei ver, entre os presentes, o célebre poeta Manuel António Pina. Infelizmente, tudo não passou de um mal-entendido.

A sessão contou com a ausência forçada (e misteriosa, naquela altura) do Dr. Manuel Córrego (Pseudónimo literário do Doutor Manuel Pereira da Costa, o maior e mais ilustre escritor contemporâneo sanjoanense) e a presença do doutor Rui Costa, vice-presidente da Câmara Municipal de São João da Madeira e vereador da Cultura, que congratulou a edição da primeira obra de Sara Costa bem como a vitória que obteve no Prémio Literário que permitiu a sua edição. 


Logo após a intervenção do autarca, segui-se a vez do doutor Rui A.Grácio, director da Pé de Página Editora tomar a palavra para falar um pouco mais da autora e da sua primeira obra, passando logo de seguida a palavra para a doutora Isabel Vaz, directora da Cooperativa Editorial "Arte-Viva", que não só se limitou a falar do mesmo que falaram os anteriores interlocutores como salientou o facto curioso de esta jovem poeta ter ganho o Prémio Literário Serra da Lousã - prémio que garantiu a publicação do seu primeiro poemário - com apenas...15 anos (!) Um caso inédito mas nada insólito na literatura universal.

O seu amigo e poeta Oliveirense Luís de Aguiar foi quem fez, na minha opinião, o melhor discurso da noite. Fez uma análise analítica e tecer rasgados elogios e comentários positivos e construtivos à obra da sua amiga, considerou o seu primeiro livro de Poesia "interessante", entre outros aspectos, e - pasme-se - fez uma comparação do percurso da poeta com o poeta do (grande) poeta francês Artur Rimbaud. A Sara, por motivos, na altura, desconhecidos, limitou-se a fazer os agradecimentos da praxe.

Segundo a poeta, numa declaração que fez ao jornal semanário sanjoanense "Labor", o seu livro não está enquadrado numa temática específica. Para Sara, a nudez dos seus poemas são uma manifestação de símbolos e a personagem principal do seu livro é o sujeito lírico, uma espécie de vulto que se movimenta entre emoções altamente instáveis para a "poetizar" os elementos mais prosaicos do quotidiano. O título escolhido - extraído de um poema do livro "Sem Título e Bastante Breve" de Al Berto - deveu-se ao facto de Sara Costa entender que as mãos serem responsáveis pela maioria da laboração humana concreta, tanto da mais trivial como da mais sublime, e, por isso, a poeta entende que transportam consigo uma certa melancolia. Relativamente aos "Rasgos" explicou o seguinte: "São os poemas que acrescentou posteriormente."

Para terminar, Sara declarou que, neste poemário, apresentou uma visão bastante pragmática acerca da inspiração. A poeta chegou mesmo a afirmar que "não é defensora nem acredita na existência de uma inspiração que transcende o homem" e que "escreve porque o universo literário me estimula intelectualmente e escrevo sempre que tenho tempo", concluiu.

Deixo-vos com um dos poemas e a capa do livro da minha amiga.

Parabéns Sara!

Tiago Moita.


"O AZUL DAS SOMBRAS"

Não sei se foi a tonalidade azul do meu corpo
tingido pelo teu olhar 
ou os segredos de lâmina 
que te queimavam as feições vítreas.

A verdade é que todos os gestos se calaram à tua passagem
mas, ainda assim, eu sabia da existência de um timbre negro 
que fervilhava à mesma altura dos sonhos.

A partir daqui nenhuma lágrima teve o feitio de antes
e só consigo escrever letras agudas
as que isolam o passado da vida.

Comparo a escrita a uma caneca de vinho
que destila memórias
até que estas tenham a dimensão de um silêncio estreito.

Deixei um recado aceso no teu sono 
porque a música acabou antes da noite
e nuca mais falaremos um do outro.

Fecho-me em casa a praticar uma arte marcial desconhecida.
Sei que o mundo desliza delicadamente para os jornais
e isso basta-me.

Pega num pedaço destes versos e coloca-o junto aos ouvidos:
é por baixo desta paixão áspera 
que te dedico o meu terror.

As pálpebras gritam o peso de um oceano.

O mundo fuma a minha morte.

SARA COSTA
"A Melancolia das Mãos e outros rasgos"
Pé de Página Editora
2004